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Há duas calamidades no Brasil: o vírus e Bolsonaro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/03/2020 20h18

Há duas calamidades no Brasil. Uma, sanitária, é compartilhada com o resto do mundo: a pandemia do coronavírus. Outra, verbal, é tipicamente brasileira: a retórica tóxica do presidente da República.

Horas depois de enviar ao Congresso um pedido de autorização para decretar o estado de calamidade pública no Brasil, Jair Bolsonaro apresentou-se diante das câmeras ao lado de nove ministros. As máscaras que enfeitavam os rostos das autoridades potencializaram a dramaticidade da cena.

Pela primeira vez, com enorme atraso, o governo brasileiro organizou-se para passar à opinião pública uma noção qualquer de coordenação.

O que havia até antão era um conjunto de ações esparsas —primeiro do Ministério da Saúde, depois da pasta da Economia. Podendo aproveitar a oportunidade para se reposicionar em cena, Bolsonaro desperdiçou a sua hora.

O presidente se absteve de reconhecer o erro de ter estimulado e participado da manifestação de domingo passado, que a emergência sanitária e o bom senso desrecomendavam.

Mentiu ao declarar que não estimulou a manifestação. E voltou a fazer a apologia de aglomerações ao dizer que pode aparecer a qualquer momento num metrô lotado de São Paulo, numa barcaça que faz a travessia entre o Rio e Niterói ou num ônibus de Belo Horizonte.

Num instante em que se utilizava da intermediação dos repórteres para se comunicar com a sociedade, Bolsonaro reiterou a tese segundo a qual a mídia utiliza a pandemia para produzir histeria.

Sem citar nomes, fez politicagem ao criticar rivais —como o governador do Rio, Wilson Witzel, que desaconselhou aglomerações nas praias. Ou o governador de São Paulo, João Doria, que compareceu à inauguração de uma estação de TV apinhada de gente.

Na sua vez de falar, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, declarou que o país enfrenta uma guerra o vírus, que chamou de inimigo invisível. As palavras de Bolsonaro não ornam com a gravidade do momento.

Na véspera, o presidente comparou a crise do coronavírus a uma gravidez: "Tem que ter calma. Vai passar. É como uma gravidez, um dia vai nascer a criança. E o vírus ia chegar aqui um dia, acabou chegando."

Sempre que Bolsonaro inicia um raciocínio, seu cérebro se comporta como se estivesse em trabalho de parto. Quando conclui a frase, desperta na plateia aquela incômoda sensação de que a montanha deu à luz um camundongo.

Josias de Souza