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'Populismo com lampejos autoritários está escancarado', afirma Sergio Moro

                                EVARISTO SA/AFP
Imagem: EVARISTO SA/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/06/2020 04h56

Apenas 40 dias depois de deixar o Ministério da Justiça, Sergio Moro faz uma avaliação ácida do governo do ex-chefe Jair Bolsonaro: "Não é o caso de falar em totalitarismo ou mesmo em ditadura, no presente momento, mas o populismo, com lampejos autoritários, está escancarado", escreveu o agora ex-ministro em artigo veiculado nesta quarta-feira (3) no jornal O Globo.

"O quadro é muito ruim", anotou Moro, com caligrafia de candidato à sucessão de 2022. "O populismo é negativo por si mesmo, seja de direita, seja de esquerda. Manipular a opinião pública, estimulando o ódio e divisão entre a população é péssimo. Temos mais coisas em comum do que divergências. Democracia é tolerância e entendimento."

Moro não vê problemas na presença de generais no comando de escrivaninhas do Planalto. Mas critica o uso da farda como vestimenta de assombração. "Não há problema na presença de militares no governo, considerando seus princípios e preparo técnico. Não há espaço, porém, para ameaçar o país invocando o falso apoio das Forças Armadas para aventuras."

Numa evidência de que decidiu aventurar-se na política, Moro expôs nas entrelinhas do texto um defeito comum nos personagens do ramo: a genialidade retardada. Entrou no governo como superministro. Durante 16 meses, percorreu os corredores de Brasília como se não enxergasse defeitos ao redor. Bastou transferir-se do palco para a crítica para vislumbrar os problemas. Melhor: agora conhece todas as soluções.

No governo, Moro conviveu gostosamente com o chefe de uma organização familiar. Jamais esboçou em público sinais de incômodo com a imagem rachadinha dos Bolsonaro. Tampouco fez cara de nojo por coabitar a Esplanada com ministros encrencados. Gente como Marcelo Álvaro Antônio (Turismo), denunciado no caso do laranjal do PSL mineiro. Ou como Ricardo Salles (Meio Ambiente), condenado por improbidade administrativa.

Súbito, lembrou que "combater a corrupção continua sendo um objetivo primário para fortalecer a economia e a democracia." Percebeu que "não se pode fazer isso enfraquecendo as instituições de controle (pode me chamar de Coaf ou de PF) com ameaças e interferências arbitrárias."

"Tampouco servem a esse objetivo a celebração de algumas questionáveis alianças políticas e a retomada de velhas práticas", acrescentou o ex-ministro. É como se o casamento de Bolsonaro com o centrão, habitat de clientes da Lava Jato, fizesse cair em Moro a ficha que revela uma obviedade: a "nova política" do capitão era conversa fiada —uma espécie de conto do vigário no qual o ex-juiz caiu.

O que fazer? "Precisamos no momento de união", ensina o novo Sergio Moro. "Há uma pandemia com número assustador de vítimas. Há necessidade de planejar e buscar a recuperação econômica. Para tanto, políticas públicas racionais e previsíveis são imperativas. Crises diárias, ameaças autoritárias, instabilidade, ódio, divisões, nada disso é positivo."

Por um instante, Moro pareceu namorar a ideia do impeachment: "Diante de recentes questionamentos contra o governo federal, há algumas opções em aberto. Insistir no populismo, que até agora nada ajudou contra a pandemia ou para recuperar a economia, não parece ser o melhor caminho. É melhor (...) agir com prudência, observar a lei, respeitar as instituições, buscar o consenso necessário para combater a pandemia..."

No último parágrafo, Moro afasta-se do "Fora, Bolsonaro", concedendo ao ex-chefe a chance de se converter num ex-Bolsonaro: "Não é difícil unir as pessoas em um momento de crise e em prol de um objetivo comum, especificamente salvar vidas e empregos e fazer do Brasil um grande país. Para tanto, é necessário fazer a coisa certa, sempre, sem tentações populistas ou autoritarismo. Há tempo para o governo se recuperar e é o que todos desejam. Mas precisa começar, já que a crise é grave e não permite perder mais tempo do que já foi perdido."

Como se vê, Bolsonaro não ganhou apenas um ex-ministro. Conquistou um rival. Se conseguir manter sua candidatura à reeleição num respirador, o capitão provavelmente terá de medir forças com o político que inventou ao transferir o titular da 13ª Vara de Curitiba para a Esplanada.

Josias de Souza