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Militares rebatem Gilmar, mas estão incomodados com general na Saúde

Ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, em Brasília -
Ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, em Brasília
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

14/07/2020 19h18

O ministro Gilmar Mendes gosta de repetir uma frase. Diz o seguinte: "Ninguém se livra de pedrada de doido nem de coice de burro". Corre no Supremo Tribunal Federal há mais de um ano um inquérito secreto aberto em condições esquisitas. Visa apurar alegados ataques à Corte e aos seus membros. Decidiu-se, com o apoio de Gilmar, tratar como ataques à instituição as pedradas e os coices que têm o Supremo como alvo.

De repente, Gilmar Mendes utiliza o fiasco da administração do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde para afirmar que o Exército se vincula a um genocídio. E espera que sua fala seja recebida com naturalidade. Diante da decisão do Ministério da Defesa de acioná-lo junto à Procuradoria-Geral da República, Gilmar disse que respeita as Forças Armadas. Mas reiterou a crítica à conversão da pasta da Saúde numa estrutura militar num instante em que a pandemia pede gestão técnica.

Não há dúvida de que o expurgo de dois ministros médicos e a substituição de 28 técnicos por militares associou o Ministério da Saúde o Exército ao estorvo que Jair Bolsonaro passou a representar na pandemia. O desastre se reflete nas estatísticas da crise do coronavírus. E vem sendo realçado à exaustão no Brasil e no exterior. Mas isso não autoriza um ministro do Supremo a exagerar na retórica como se estivesse atirando pedras ou distribuindo coices. Se o Supremo reage corporativamente contra os ataques que sofre, o ministro não pode reclamar da reação corporativa dos militares.

A cúpula das Forças Armadas não está alheia aos riscos que corre na Saúde. Discute-se, por exemplo, a hipótese de o general Pazuello passar para a reserva. Tenta-se também convencer Bolsonaro a nomear um ministro efetivo, interrompendo a interinidade do general. O presidente não esboçou, por ora, interesse por nenhuma dessas hipotéticas soluções.

A Bolsonaro parece interessar a manutenção do quadro em que seu governo se confunde com a instituição militar. Para as Forças Armadas isso serve apenas para inspirar pedradas de doido e coices de burro. Forças Armadas são instituições de Estado, não se confundem —ou não deveriam se confundir— com forças de sustentação de um governo.

Josias de Souza