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PF pode contribuir para tirar máscara da política

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

15/07/2020 16h01

A entrada da Polícia Federal no caso do Facebook, já autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, tornou-se inevitável e necessária. Ao desativar as redes administradas anonimamente pelo bolsonarismo, o Facebook justificou-se dizendo que as páginas, as contas e os grupos exibiam um "comportamento inautêntico coordenado". Inautêntico é falso. Coordenado pressupõe a presença de coordenadores. É preciso esclarecer quais foram as falsidades difundidas nas redes sociais e quem comanda as mãos que operam os teclados.

De acordo com o Facebook, há entre os difusores de raiva e desinformação assessores do presidente da República e dos seus filhos. Olhando-se a lista de nomes, verifica-se que Jair Bolsonaro tem um espinho no pé. Chama-se Tércio Arnaud Thomaz. É assessor especial da Presidência, tem escrivaninha no terceiro andar do Planalto, a poucos passos da sala presidencial. Apontado como braço operacional do gabinete do ódio no Planalto, recebe R$ 13,6 mil por mês.

Se ficar demonstrado que Tércio é remunerado pelo contribuinte para desperdiçar seu expediente industrializando raiva e falsidade nas redes sociais, Bolsonaro pode ter problemas. A Constituição proíbe que um presidente seja processado por eventuais delitos cometidos antes da posse. Mas os indícios de que a rede clandestina operou nos anos de 2019 e 2020 empurram a encrenca para dentro do mandato de Bolsonaro.

Na única manifestação pública que fez sobre o caso, Bolsonaro jogou Tércio para baixo do tapete. Em vez de explicar o que faz o seu assessor, preferiu omitir o nome dele e desconversar. Desafiou a imprensa a mostrar manifestações de ódio nas suas redes sociais ou nas de seus filhos. Não é disso que a Polícia Federal vai tratar. As páginas oficiais de Bolsonaro e de sua prole continuam no ar. O que se investigará é a manipulação digital anônima contra instituições, adversários e a própria sociedade, que merece uma política feita sem máscaras.

Josias de Souza