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Josias de Souza

Falta ao governo o ovo digno de ser cacarejado

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Imagem: iStock
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/07/2020 05h27

Moro num sobrado com uma linda vista. É grudado numa reserva ecológica. Da varanda, vê-se o Lago Paranoá. E depois dele, miniaturizados pela distância, o Congresso, o Planalto e a Esplanada dos Ministérios.

Isolado pelo vírus, adquiri o hábito de sair à varanda à noitinha. Encanta-me a possibilidade de admirar, assim de longe, banhada pela lua, a silhueta do poder.

Noutro dia, veio-me à tona um haicai de Mário Quintana: "Silenciosamente, sem um cacarejo, a noite põe o ovo da lua..."

Raciocinei comigo: as autoridades de Brasília, diferentemente da noite, cacarejam, cacarejam, mas não botam muitos ovos.

No alvorecer da gestão de Jair Bolsonaro, houve uma exceção. Aprovou-se uma vistosa reforma da Previdência. Obra coletiva, exuberante como a lua do haicai.

Imaginava-se que, engatada a primeira marcha, o Planalto viraria uma chocadeira de novas e boas ideias, uma usina de reformas.

Pois bem, o mandato segue avançado. Bolsonaro antecipou o debate sobre sua própria sucessão. E o governo não dispõe de uma marca.

Não há um único e escasso ovo fresco no cesto. Alega-se que o coronavírus desfigurou a agenda. Conversa mole.

O governo perdeu o rumo antes do vírus. Fechou 2019 com um pibinho de 1,1% —coisa de sub-Temer. Na política, a língua de Bolsonaro virou líder da oposição.

No momento, infectado pelo vírus, Bolsonaro cultiva uma agenda feita de inquéritos no Supremo, pedidos de cassação no TSE e a compra da proteção do centrão.

No mais, o presidente toca o seu vídeo-governo. Na penúltima live, anunciou a permanência de um ministro antiambientalista no Meio Ambiente e de um general paraquedista na Saúde.

Paulo Guedes diz que só deixa a Economia se for abatido a tiros. Mas avisa que chamará o caminhão de mudança se o presidente e o Congresso bloquearem as reformas.

Bolsonaro rendeu-se ao liberalismo. Mas é de outro tipo. Libera cargos e verbas para a banda bandalha do Congresso. Libera afagos para o Fabrício Queiroz. Libera isso e aquilo.

O Posto Ipiranga é bom de gogó. Mas falta-lhe o combustível. Acena com a hipótese de apresentar na terça-feira a proposta de reforma tributária prometida há um ano e meio. E jura que irá privatizar quatro grandes estatais em 90 dias.

Bolsonaro atravessa uma quadra delicada. Convive com uma assombração que está presente no seu próprio vaticínio: "Se a economia afundar, acaba o governo..."

Falta ao governo algo que se pareça com um rumo. Ou, por outra, Bolsonaro toma o rumo da crise. Revela-se uma pequena criatura diante do gigantismo da crise.

Vá lá que o capitão continue desejando reeleger-se. Mas é preciso que diga para quê.

Precisaria, de resto, colocar ordem no galinheiro. E botar na praça um governo digno de ser cacarejado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza