PUBLICIDADE
Topo

Falas de Guedes pedem aplicação de um redutor

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/09/2020 19h45

Paulo Guedes falou sobre a reforma administrativa nesta quarta-feira mais como animador de auditório do que como ministro da Economia. Disse que Jair Bolsonaro não permitiu que a reforma atingisse os atuais servidores, mas autorizou a mexer "profundamente" nas regras do funcionalismo do futuro. Se autorizou, a equipe econômica não aproveitou, pois deixou de fora da reforma os militares e as carreiras de elite do serviço público —juízes , procuradores e promotores, por exemplo.

O ministro criticou o que chamou de "salários baixos" pagos no topo da carreira do funcionalismo. "Acho um absurdo que os salários da alta administração brasileira são muito baixos. Vai ser difícil reter funcionários de qualidade no serviço público." Citou o ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida, que deixou o governo para passar pela porta giratória que conduz ao mercado financeiro. Virou sócio de banco. Até aí, tudo bem.

Entretanto, Guedes misturou alhos com bugalhos ao defender que o presidente da República e os ministros do Supremo deveriam ganhar muito mais do que o teto da administração pública —R$ 39,2 mil por mês— permite. Alega que a responsabilidade e o mérito dessas autoridades é grande. Quanto à responsabilidade, não há dúvida. O mérito é absolutamente questionável.

Guedes soaria mais adequado se criticasse a porosidade da folha do Estado, que deixa passar contracheques muito acima do teto. De resto, não faria mal se o ministro considerasse as mordomias em seus cálculos antes de virar líder sindical de Bolsonaro. Além do contracheque, que acumula com a aposentadoria de capitão, o presidente tem ao seu dispor um palácio residencial, carros na garagem, jato no hangar e todas as mordomias que o déficit público pode pagar.

Guedes previu uma tramitação legislativa "suave", uma aprovação da reforma no Congresso ainda neste ano. Estimou em R$ 300 bilhões a economia a ser obtida em dez anos. Quem não quiser fazer papel de bobo deve aplicar um redutor nas previsões do ministro. Sua garganta não orna com os fatos. Promete mais do que entrega. Disse que acabaria com subsídios. Nada. Daria uma facada no Sistema S. Nem sinal. Coletaria mais de R$ 1 trilhão com a venda de estatais e imóveis públicos? Necas. Reforma administrativa a jato? Improvável. Economia de R$ 300 bilhões? Deus sabe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL