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Josias de Souza

Maricas fizeram do voto pólvora para Bolsonaro

                                 Logo depois de se votar na Vila Militar, o presidente Jair Bolsonaro foi até o bairro de Bento Ribeiro, também na zona norte                              -                                 EVARISTO SA / AFP
Logo depois de se votar na Vila Militar, o presidente Jair Bolsonaro foi até o bairro de Bento Ribeiro, também na zona norte Imagem: EVARISTO SA / AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/11/2020 05h12

Em terra de cego, maricas que tem um olho não diz que o rei está nu. Prefere transformar voto em pólvora a gastar saliva com quem faz ouvidos moucos para a realidade.

Jair Bolsonaro será candidato à reeleição em 2022. A eleição municipal não altera esse plano. Mas o eleitorado sinalizou ao presidente que o segundo mandato depende do êxito, não do gogó.

O terraplanismo sanitário e a ideologia sem resultados foram como que jurados de morte no primeiro turno da eleição da pandemia. Mas Bolsonaro reagiu como se sua Presidência estivesse cheia de vida.

Crivado de recados, o presidente assistiu pela TV à derrota de candidatos que apoiou. Sem se dar conta de que internet não tem borracha, correu às redes sociais para apagar a lista dos seus preferidos.

De todos os waterloos que o domingo impôs a Bolsonaro o mais devastador foi São Paulo. Ali, o capitão afundou abraçado a Celso Russomanno. E exibiu nas redes sociais uma pose de Napoleão desentendido.

"Há 4 anos Geraldo Alckmin elegeu João Dória prefeito de São Paulo no primeiro turno", anotou o Napoleão do Alvorada no Twitter. "Dois anos depois Alckmin obteve apenas 4,7% dos votos na disputa presidencial."

Obcecado por 2022, Bolsonaro olha para 2020 pelo retrovisor sem se dar conta do essencial: o êxito do prefeito tucano Bruno Covas, da turma do "fique em casa", explica porque 50% dos paulistanos rejeitam o presidente da "gripezinha".

Em política, o pior cego é o que se recusa a ouvir as urnas. Um pedaço do eleitorado paulistano ouviu Guilherme Boulos, do PSOL. Bolsonaro, não: "A esquerda sofreu uma histórica derrota nessas eleições..."

A onda de extrema-direita que levou Bolsonaro ao Planalto virou marola em 2020. Mas o presidente leva a mão à prancha. Enxerga na conjuntura eleitoral uma "clara sinalização de que a onda conservadora chegou em 2018 para ficar."

Bolsonaro demora a perceber que os principais surfistas desta eleição municipal são os partidos conservadores do centrão e assemelhados, ávidos por conservar suas boquinhas.

Bolsonaro olha para o futuro com olhos de Donald Trump. Defensor do voto impresso, vê o atraso como aperfeiçoamento. "Para 2022, a certeza de que, nas urnas, consolidaremos nossa democracia com um sistema eleitoral aperfeiçoado."

O presidente evocou "Deus, pátria e família." Deus, como se sabe, existe. Mas a desenvoltura do capitão prova que Ele já não é full time. Permitiu que a família Bolsonaro se casasse com a pátria e fosse morar no déficit público.

Incomodados, os maricas esboçaram nas urnas uma certa impaciência com o fato de ter que atravessar uma conjuntura tão despida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL