PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Autocrítica de Silveira chegou na hora da autopsia

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/02/2021 19h57

Em política, o grande problema dos gestos de contrição é que eles costumam chegar tarde. Por exemplo: o pedido de desculpas do deputado Daniel Silveira chegou num instante em que já estava consolidada a convicção de que o seu caso é de autopsia, não de autocrítica. Sua prisão foi mantida pelo acachapante placar de 364 votos a 130, com três abstenções.

Num feito histórico, Silveira colocou a Câmara para trabalhar na noite de uma sexta-feira pandêmica e quaresmal. Foi como se cutucasse os colegas com o pé para ver se eles mordiam. Morderam. Deram de ombros para o arrependimento ensaiado do preso.

Com sua fala inarticulada, o deputado lamentou ter usado suas prerrogativas democráticas para torpedear a democracia e insultar os ministros do Supremo. O brucutu soou como um ex-brucutu:

"Assisti ao vídeo três vezes. E vi que minhas palavras foram duras suficientes até para mim mesmo. Não consegui compreender o momento da raiva em que me encontrava. Peço desculpas a todo o Brasil. Me excedi de fato na fala. Foi um momento passional. Foram falas impróprias. Lamento pelo episódio e por ter gerado esse impasse dentro do Congresso. Me pôs em posição de reflexão. Qualquer um pode exagerar."

Habituado a falar dez vezes antes de pensar, Daniel Silveira como que admitiu que seu cérebro funciona em velocidade incompatível com a sensatez. Considera-se, porém, inofensivo. Encarcerado por decisão unânime do Supremo, atribuiu à mídia o fato de estar pendurado nas manchetes de ponta-cabeça como um risco à democracia:

"Já me arrependi. O ser humano vai de zero a 100 em segundos. Quem nunca fez isso na vida? Quem jamais exagerou em suas falas ou errou? Se não fosse assim, viveríamos em plena harmonia. De maneira alguma me considero um risco à democracia como fui classificado pela mídia."

Quem quiser decifrar o arrependimento de Daniel Silveira deve esquecer o vídeo das "palavras duras" que levaram o personagem à prisão. Deve-se analisar apenas o que sucedeu depois que o deputado recebeu voz de prisão.

Enquanto os agentes federais o aguardavam na sala de sua casa, o deputado levou ao ar nas redes sociais novas ofensas às supremas togas. Manteve a língua engatilhada na passagem pelo IML. Xingou uma policial que ousou pedir que usasse máscara.

Na carceragem da PF, armado de dois celulares, Daniel Silveira continuou disparando diatribes para o mundo exterior. Transferido para um batalhão da PM na véspera da sessão em que encenaria seu arrependimento, passeou pelo pátio, achegou-se ao portão, cumprimentou admiradores e prometeu: "Vocês vão saber a verdade. Eu vou mostrar para o Brasil quem é o STF."

Menos de 24 horas depois desta sua penúltima ameaça, o deputado falou aos colegas em timbre comedido. Referiu-se aos alvos do Supremo com compostura e respeito. Ou seja: estava completamente fora de si.

O Daniel Silveira pré-arrependimento parecia brincar a sério de roleta-russa, sem se preocupar com as consequências. O deputado arrependido continua brincando. A diferença é que agora o extremista do bolsonarismo atira palavras sensatas a esmo, protegido pela certeza de que manipula uma sinceridade completamente descarregada.

O preso se define como um legítimo representante da "nova política". Desconhece as mumunhas dos políticos tradicionais que o julgam. É possível que Daniel Silveira nunca tenha ouvido falar no deputado mineiro José Bonifácio (1904-1986). Na intimidade, chamavam-no Zezinho Bonifácio. Mas ninguém ignorava que era mais Bonifácio do que Zezinho. Foi líder do governo no regime militar e presidente da Câmara.

Conta-se que, certo dia, quando conduzia um deputado novato pelas dependências da Câmara, Zezinho Bonifácio ministrou um ensinamento que se tornou eterno na Casa: "Aqui, meu filho, tem de tudo. Tem ladrão, tem honesto, canalha, gente séria..." Após alguns segundos de pausa, arrematou: "Aqui só não tem bobo."

Na prática, Daniel Silveira pediu aos deputados que se fingissem de bobos pelo bem da corporação. Não se deu conta de que falava para uma corporação apinhada de investigados, denunciados, réus, condenados e cúmplices. Gente esperta o bastante para saber que, em política, não se deve bater palma para maluco dançar na porta do STF. Vivo, Zezinho Bonifácio exclamaria: "Fala séééério!!!"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL