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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vírus vira álibi para a fuga do general Pazuello

25.abr.2021 - O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello foi flagrado sem máscara em um shopping de Manaus - Jaqueline Bastos/Arquivo Pessoal
25.abr.2021 - O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello foi flagrado sem máscara em um shopping de Manaus Imagem: Jaqueline Bastos/Arquivo Pessoal
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/05/2021 12h19

Dez dias depois de ser pilhado passeando sem máscara por um shopping de Manaus, o general Eduardo Pazuello foi acometido por um surto de responsabilidade sanitária. Convocado para explicar na CPI da Covid o desastre que produziu à frente do Ministério da Saúde, o ex-ministro invocou um álibi inusitado para fugir da inquirição: o coronavírus.

Sob a alegação de que teve contato com pessoas infectadas, o general comunicou à CPI que não comparecerá à sessão de quarta-feira, que havia sido integralmente reservada para o seu depoimento. Em tempos de assepsia, é como se Pazuello estabelecesse com a Covid-19 uma relação do tipo uma mão suja a outra.

Como ministro, o general prestou inestimáveis favores ao vírus, contribuindo com sua incompetência para que a infecção se propagasse. Como ex-ministro, Pazuello utiliza a propagação do mesmo vírus como escudo para retardar as explicações sobre a sua inépcia.

Ironicamente, o risco de infecção não impediu que a Casa Civil da Presidência da República submetesse Pazuello a intensas sessões de treinamento para o depoimento à CPI. Depois de tanto treino, por mais que o general se esforce, não conseguirá afastar a maledicência que associa sua fuga ao medo de que sua aparição se transforme num desses espetáculos de teatro extremamente badalados que fracassam porque o público não foi devidamente ensaiado para a encenação.

O grande receio do Planalto é o de que Pazuello seja convertido pela CPI numa espécie de bala perdida no rumo de Bolsonaro. A boa notícia para o governo é que a protelação do depoimento do general que comandou a pasta da Saúde guiando-se pelo lema segundo o qual "um manda e o outro obedece" não aumentou a taxa de suspeição que ronda o presidente. A suspeita de que o desastre produzido por Pazuello é de responsabilidade de Bolsonaro continua nos mesmos 100%.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL