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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pastor do MEC quer transformar merendeiras em cúmplices de sua homofobia

                                BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Imagem: BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/03/2022 16h20

Denunciado no Supremo Tribunal Federal por ter dito numa entrevista que homossexuais são frutos de "famílias desajustadas", o pastor Milton Ribeiro, ministro da Educação, tornou-se um homofóbico reincidente. Pior: sinalizou a intenção de transformar as merendeiras de escolas públicas em suas cúmplices.

A coisa aconteceu nesta quarta-feira, durante o lançamento de um reality show de culinária batizado de Merendeiras do Brasil. O programa foi idealizado pelo MEC. Terá oito episódios. Depois de gravado, será transmitido pela Rede TV, aos domingos. Na cerimônia de lançamento, Ribeiro surpreendeu os presentes ao atribuir às merendeiras uma tarefa que ultrapassa os limites da cozinha. Falou como se enxergasse nelas uma vocação para fiscais da ideologia de gênero nas escolas.

"Não vamos permitir que a educação brasileira vá por um caminho de tentar ensinar coisa errada para as crianças", disse o ministro. "Coisa errada se aprende na rua. Dentro da escola, a gente aprende o que é bom, o correto, o civismo, o patriotismo. [...] Tenho certeza que as merendeiras, mães, avós estão comigo. Eu quero cuidar das crianças. Não vou permitir que ninguém violente a inocência das crianças nas escolas públicas."

O ministro prosseguiu: "Esse é um compromisso do nosso presidente. Não tem esse negócio de ensinar: você nasceu homem, pode ser mulher. Respeito todas as orientações. Mas uma coisa é respeitar, incentivar é outro passo."

Ribeiro deu de ombros para a denúncia que a Procuradoria-Geral da República move contra ele por homofobia. "Não vou permitir que, com crianças de 6 a 10 anos, um professor chegue e diga que se ela nasceu homem, se quiser pode ser mulher. Isso eu falo publicamente, mesmo. Por isso que meu processo já está lá no STF. Não tenho vergonha de falar isso. Não tenho compromisso com o erro."

Na véspera, em encontro com líderes evangélicos, Bolsonaro parecia orgulhoso do trabalho do seu ministro. "Quem esperava um dia no Ministério da Educação termos um pastor evangélico, como o Milton aqui do nosso lado?".

No encontro com as merendeiras, o pastor realçou que o Estado e a igreja são —deveriam ser— coisas distintas. Mas não esboçou preocupação. Ao contrário. Soou como se desejasse colocar a turma da merenda no encalço dos professores.

"Temos que respeitar todos, nosso país é laico", afirmou o ministro. "Mas tenho certeza que as merendeiras do Brasil, que cuidam das crianças, também têm esse cuidado todo especial. Não apenas com o que se come, mas com o que se aprende intelectualmente."

Milton Ribeiro assombra-se com um espantalho. Os professores que estimulam criancinhas a trocar de sexo estão na sua cabeça, não nas salas de aula. Ali, há fantasmas reais. Por exemplo: a alfabetização tardia de crianças, a evasão no ensino médio, o décifit de aprendizado no ensino superior e a capacitação precária dos professores. Sobre esses pontos, o ministro não tem nada a dizer.