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Josias de Souza

Doria prova do veneno que serviu a Alckmin

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/05/2022 16h17

Divisão e vingança, nada na história do PSDB é tão antigo e tão letal. De todos os candidatos tucanos ao Planalto, o único que se livrou desse enredo foi Fernando Henrique Cardoso, que prevaleceu duas vezes sobre Lula no primeiro turno cavalgando o Plano Real. João Doria, a penúltima vítima das maldições do ninho, prova em 2022 do mesmo veneno que serviu em 2018 a Geraldo Alckmin, só que em dose letal.

Numa tentativa desesperada de preservar o governo de São Paulo, sua última cidadela, o PSDB arremessou no mar o sonho e as taxas de rejeição do seu agora ex-presidenciável. "Não sou a escolha da cúpula do PSDB", disse Doria, ao abdicar do projeto. Rodrigo Garcia, o afilhado que Doria importou do DEM para representar o tucanato na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes, não deu as caras no ato de renúncia.

Garcia esfaqueou seu padrinho com o mesmo pragmatismo que levou Doria a trair Geraldo Alckmin em 2018 com o híbrido Bolsodoria. A diferença é que Garcia já não pode embarcar explicitamente na canoa de Bolsonaro, pois o capitão teve o cuidado de fabricar seu próprio candidato em São Paulo. O bolsonarista Tarcísio de Freitas, aliás, aparece à frente de Garcia nas pesquisas, na terceira posição.

Dessa vez, foi Alckmin quem caprichou no cruzamento de gêneros políticos de linhagens diferentes. Moído nas urnas de 2018 com humilhantes 4,7% dos votos, o ex-traído trocou a social-democracia de direita pelo neossocialismo de resultados. Filiado ao PSB, assiste à ruína política de Doria a bordo do arranjo Lulalckmin. Levou os signos do tucanato e um aroma de terceira via para dentro da chapa do ex-rival petista. Enxerga na desistência de Doria um atalho que pode levá-lo ao Palácio do Jaburu ainda no primeiro turno.

Alckmin foi o tucano que mais governou São Paulo desde o Império. Encosta sua biografia nos palanques de Fernando Haddad (PT) e Márcio França (PSB), os dois primeiros colocados nas pesquisas de São Paulo. A desistência de Doria não livrou o PSDB do risco de perder o governo paulista após 28 anos de hegemonia.

No plano nacional, o tucanato continua dividido. Depois de puxar o tapete de Doria, a ala comandada pelo notório Aécio Neves passou a defender o respeito às prévias, com o lançamento da candidatura presidencial de Eduardo Leite, segundo colocado nas primárias. A maioria da Executiva do partido prefere aderir a Simone Tebet, do MDB.

A transição do PSDB da insignificância para a irrelevância está crivada de ironia. Nascido de uma dissidência do velho PMDB, que se formou a partir da aversão às práticas aéticas de Orestes Quércia, o tucanato desistiu do protagonismo para tornar-se coadjuvante do MDB. A eliminação da letra 'P' não purificou a velha legenda.

Para complicar, a candidatura de Simone Tebet, um nome leve e saudável, enfrenta a resistência das alas do MDB cujas práticas se confundem com as de Quércia. Uma banda defende a adesão a Lula. Outro pedaço do MDB namora com o projeto de Bolsonaro. Quer dizer: não há, por ora, a menor certeza quanto à capacidade de Simone de levar sua candidatura últimas consequências.

Ouve-se ao fundo um barulhinho esquisito. É o ruído dos grão-tucanos Mario Covas e Franco Montoro se revirando no túmulo. Os dois foram citados por Doria no discurso de renúncia.