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Josias de Souza

'Honrarias' da PF a ex-ministro injetam escárnio dentro do escândalo do MEC

 Milton Ribeiro: PF diz que havia "organização criminosa" no MEC  -  O Antagonista
Milton Ribeiro: PF diz que havia "organização criminosa" no MEC Imagem: O Antagonista
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/06/2022 17h43

Bolsonaro, seus filhos e todos os bumbos da banda do bolsonarismo se referiram à prisão do ex-ministro Milton Ribeiro como uma evidência de que o governo não interfere no trabalho da Polícia Federal. Numa correspondência de nove parágrafos, o delegado federal Bruno Calandrini, responsável pelo inquérito sobre o pastoreio de verbas no MEC, triturou essa versão.

No texto, o delegado faz uma espécie de desabafo para os colegas que participaram das batidas de busca e apreensão e das prisões. Ele sustenta que houve "interferência na condução da investigação". Espanto! Anota que o ex-ministro "foi tratado com honrarias não existentes na lei". Pasmo!! Declara que a apuração foi "prejudicada". Assombro!!! Avalia que não dispõe de "autonomia investigativa para conduzir o inquérito deste caso com independência e segurança institucional." Estupefação!!!

Como evidência da interferência, Bruno Calandrini menciona o fato de o Milton Ribeiro não ter sido transferido da cidade de Santos para Brasília, como havia determinado inicialmente o juiz Renato Borelli, da 15ª Vara Federal do Distrito Federal. O ex-ministro acabou sendo conduzido para a carceragem da PF em São Paulo. O órgão alegou que dificuldades financeiras teriam impedido a transferência. O delegado insinua que as razões foram outras.

Tomado pelo teor do seu texto, o delegado Bruno Calandrini parece lamentar a perda da chance de interrogar Milton Ribeiro nas pegadas de sua detenção. Surpreendido, o ex-ministro poderia tropeçar na língua. O efeito surpresa virou fumaça com a retenção do preso em São Paulo e a posterior ordem de soltura, emitida nesta quinta-feira pelo desembargador Ney Bello, do TRF-1, sediado em Brasília.

A repórter Malu Gaspar informa no jornal O Globo que Bello é o magistrado favorito a assumir uma das vagas à espera de preenchimento no Superior Tribunal de Justiça. O magistrado coleciona um histórico de decisões que ornam com os interesses do Planalto.

A propósito da correspondência do delegado Calandrini, a Polícia Federal divulgou uma nota oficial. Nela, informou que abrirá apuração "para verificar a eventual ocorrência de interferência, buscando o total esclarecimento dos fatos". Resta saber quem investigará a apuração da Polícia Federal.

Abaixo, a íntegra da carta do delegado Bruno Calandrini:

"Muito obrigado a todos pelo empenho na execução da Operação Acesso Pago.

A investigação envolvendo corrupção no MEC foi prejudicada no dia de ontem em razão do tratamento diferenciado concedido pela PF ao investigado Milton Ribeiro.

Vejo a operação policial como investigação na essência e o momento de ouro na produção da informação/prova.

O deslocamento de Milton para a carceragem da PF em SP * é demonstração de interferência na condução da investigação, por isso, afirmo não ter autonomia investigativa e administrativa para conduzir o Inquérito Policial deste caso com independência e segurança institucional.

Falei isso ao Chefe do CINQ ontem, após saber que, por decisão superior, não iria haver o deslocamento de Milton Ribeiro para Brasília, e, manterei a postura de que a investigação foi obstaculizada ao se escolher pela não transferência de Milton à Brasília à revelia da decisão judicial.

As equipes de Gyn, Brasília, Belém e Santos, que cumpriram a missão de ontem, trabalharam com obstinação nas ruas e no suporte operacional, um trabalho hercúleo para o cumprimento dos mandados durante a Operação Acesso Pago, literalmente se esforçaram 24/7 e foram aguerridos em capturar todos os alvos. Faço referência especial às equipes de GYN que, mesmo após a prisão, ainda escoltaram os presos via terrestre, para a SR/PF/DF, incontinenti.

No entanto, o principal alvo, em São Paulo, foi tratado com honrarias não existentes na lei, apesar do momento operacional da equipe de Santos que realizou a captura de Milton Ribeiro, e estava orientada, por este subscritor, a escoltar o preso até o aeroporto em São Paulo para viagem à Brasília,

Quantos presos de Santos, até ontem, foram levados para a carceragem da SR/PF/SP?

É o que tinha a manifestar em lealdade a vocês que cumpriram a missão de ontem com o espírito do verdadeiro policial federal."