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Josmar Jozino

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Investigação da PF e do MP identifica o principal doleiro do PCC

Wilson Decaria Júnior, 54, conhecido como Tio, acusado de ser o principal doleiro do PCC  - Divulgação
Wilson Decaria Júnior, 54, conhecido como Tio, acusado de ser o principal doleiro do PCC Imagem: Divulgação
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

05/05/2021 04h00Atualizada em 05/05/2021 09h45

Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público do estado de São Paulo apontam que Wilson Decaria Júnior, 54, conhecido como Tio, é o principal doleiro do PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior facção criminosa do país. A PF pediu a decretação da prisão dele, mas Justiça Federal negou.

Wilson é réu em outro processo no 3º Tribunal do Júri de São Paulo. Foi acusado de envolvimento no assassinato do advogado Francisco Assis Henrique Neto Rocha, 58, morto a tiros em 19 de junho de 2019 em Santo Amaro, zona sul paulistana.

Segundo a Polícia Federal, Wilson foi identificado após delação do piloto Felipe Ramos Morais, o mesmo que levou no voo da morte em um helicóptero, os líderes do PCC Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, em fevereiro de 2018 no Ceará.

Wilson é investigado pela PF e também pelo Ministério Público do estado de São Paulo, através do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e de Combate ao crime Organizado) de Presidente Prudente. Os dois órgãos compartilharam informações e chegaram ao nome do doleiro.

Operação Tempestade

Na manhã de segunda-feira (3), a PF deflagrou a Operação Tempestade, um desdobramento da Operação Rei do Crime, desencadeada em setembro do ano passado quando foi desarticulado o maior braço financeiro do PCC, responsável pela movimentação de R$ 32 bilhões em quatro anos.

A Operação tempestade descobriu que uma empresa se passava por instituição financeira para movimentar valores milionários. Era uma espécie de banco do crime. Os acusados atuavam na lavagem de dinheiro com contrabando de cigarros no Paraguai e no tráfico internacional de drogas.

Recentemente, a quadrilha expandiu os negócios para ocultação de valores oriundos de corrupção envolvendo servidores públicos em diversas áreas, como a saúde. As investigações revelaram uma movimentação de R$ 700 milhões.

Banco do crime

O banco do crime usava até transportadora de valores para entregar e receber dinheiro em espécie aos envolvidos no esquema, inclusive para servidores públicos suspeitos de desviar verbas de combate à covid-19. A Justiça ordenou o bloqueio de R$ 225 milhões em contas bancárias e R$ 30 milhões em bens.

Foram identificados quatro núcleos no esquema, e a PF pediu a decretação da prisão de cinco pessoas em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Distrito Federal. O núcleo de Wilson é apontado como o principal do bando, responsável pela lavagem de dinheiro.

Tio, o apelido de Wilson, aparece em planilhas apreendidas com líderes do PCC, alvos da Operação Sharks (tubarões, em inglês), coordenada pelo Gaeco de Presidente Prudente. Essas investigações apontaram que a facção usou doleiros para movimentar R$ 1 bilhão entre abril de 2018 e julho de 2019.

Planilhas encontradas com Robson Sampaio de Lima, o Tubarão, um dos contadores do PCC, preso há três anos — apelido este que deu nome à operação do Gaeco — mostram que a facção usou os serviços de Tio para lavagem de dinheiro e movimentou R$ 50 milhões e US$ 3,7 milhões entre janeiro e agosto de 2018, como divulgou o UOL em 30 de outubro de 2020.

Depoimento virtual

Wilson chegou a ser preso em agosto de 2019 sob a acusação de ter contratado para empresários amigos dois pistoleiros para matar o advogado Francisco de Assis. O crime aconteceu em um posto de combustíveis na avenida Washington Luís e teve grande repercussão à época.

Os matadores cometeram dois erros. Jogaram a pistola calibre .40 usada no crime em um prédio desativado da Faculdade Estácio. E também queimaram parcialmente um Citroën utilizado na ação. O carro foi emprestado de um amigo por um dos matadores.

O dono do veículo foi identificado e revelou o nome da pessoa para quem havia emprestado o automóvel. Um vigia da Faculdade Estácio encontrou a pistola e avisou a polícia. Todos os envolvidos no homicídio foram identificados.

Um dos acusados havia fugido para Portugal. Ele devia R$ 2,5 milhões para o advogado e, por isso, mandou matá-lo. Os executores do crime receberam R$ 500 mil. Wilson foi acusado de entregar o dinheiro aos pistoleiros, com os amigos, em um estacionamento na Vila Olímpia, na zona sul.

Em 19 de fevereiro de 2020, Wilson e outros réus no mesmo processo foram soltos graças a um habeas corpus concedido pelo ministro Marco Aurélio Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal). O doleiro ficou recolhido no CDP (Centro de Detenção Provisória) 1 de Osasco, na Grande São Paulo.

Seis meses depois, em agosto do ano passado, a Justiça de São Paulo mandou prender novamente Wilson e outros dois réus. Mas o doleiro não foi encontrado. Mesmo assim, ele foi interrogado, virtualmente, durante 58 minutos e 15 segundos, em audiência realizada em dezembro do ano passado. O réu negou envolvimento no homicídio do advogado.

O advogado Mauro Otávio Nacif disse ao UOL que Wilson, seu cliente, não tem envolvimento com o crime organizado, não é doleiro do PCC e manifesta o maior interesse de prestar esclarecimentos para a Polícia Federal, mas jamais foi intimado ou chamado para ser ouvido.

Em relação à morte do advogado Francisco Assis, o defensor afirmou que Wilson não o conhecia e jamais teve envolvimento no crime. Segundo Mauro Nacif, seu cliente apenas intermediou um dinheiro que dois empresários lhe pediram para poder quitar uma dívida que tinham com a vítima.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, a Justiça Federal não decretou a prisão de Wilson Decaria Júnior. A PF pediu a prisão, mas ele foi negado. O texto foi corrigido.