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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro aflora um lado miliciano ao sugerir confinar ambientalistas

Jair Bolsonaro - Tomaz Silva/Agência Brasil
Jair Bolsonaro Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/02/2020 19h14

Passou-se mais de um ano desde que Jair Bolsonaro sentou-se na cadeira presidencial, mas ele ainda não aprendeu uma lição importante. Pouco importa se não acredita no direito das populações indígenas a seus territórios, em modelos de desenvolvimento que levem em consideração a proteção ao meio ambiente ou na necessidade de respeitar a liberdade de associação e de manifestação em nome de uma causa, como o desenvolvimento sustentável. Bolsonaro precisa acreditar em boicote.

Em comemoração pelos 400 dias de seu governo, nesta quarta (5), ele afirmou que, se puder, confinará ambientalistas para que deixem de atrapalhar. "Esse pessoal do meio ambiente, né... Se um dia eu puder, confino-os na Amazônia. Eles gostam tanto de meio ambiente." Deixou escapar o seu lado miliciano.

Em uma situação em que as instituições estivessem funcionando normalmente, Bolsonaro seria processado no Supremo Tribunal Federal por conta desta e de um rosário de outras declarações. Mas não há ambiente político para tanto e o presidente vai continuar distribuindo ofensas típicas de governantes autoritários.

A ignomínia foi dita em meio à defesa de um projeto para a regulamentação da exploração mineral e de recursos naturais em territórios indígenas - uma antiga tara sua. E como bobagem nunca anda só, voltou a dizer que "o índio é um ser humano exatamente igual a nós". Segundo ele, veja só, essas populações têm "coração", "sentimento", "alma", "desejo", "necessidades" e "é tão brasileiro quanto nós". Feliz é o país em que Bolsonaro é o senhor, pois sem essa explicação, nunca ficaríamos sabendo disso.

A declaração ocorre no mesmo dia em que repercute negativamente, no Brasil e fora, a indicação de um ex-missionário evangélico para cuidar da área da Funai que protege populações indígenas isoladas, ou seja, que não possuem contato com o restante da sociedade.

Bolsonaro se vê como a linha de chegada do progresso: uma variação racista, machista, miliciana, filhocrata e despótica dos semoventes que habitam este planeta, como já disse aqui na outra vez que ele reafirmou a humanidade dos indígenas. Acredita que determinados povos são mais atrasados do que outros simplesmente por adotarem outro modo de vida e terem cultura diferente. Do alto do seu maniqueísmo, não consegue compreender a complexidade da vida em sociedade. Tem uma visão de mundo dotada de um anacronismo atávico, que traz consigo um conceito de progresso civilizacional abandonado há muito tempo.

Munido desse combo pré-histórico, ele conseguiu uma façanha: levou o Brasil a perder o protagonismo no combate global às mudanças climáticas e o respeito na área ambiental por parte de outras democracias. Houve um salto no desmatamento da Amazônia. E um naco da floresta ardeu em chamas.

Tudo porque decidiu atender aos desejos suicidas da parcela anacrônica do agronegócio e do extrativismo. Sua retórica serviu como o combustível para que pecuaristas, grileiros e madeireiros queimassem e derrubassem a floresta. E para que garimpeiros ficassem à vontade para invadir territórios indígenas. Os ataques a quem fiscaliza (Ibama e ICMBio) e a quem monitora (INPE) passaram a mensagem de que o governo garantiria a impunidade. E quando o problema começou a ser notado, na forma de nuvens de fumaça em fotos de satélite, o governo fugiu da responsabilização, tentando culpar sociedade civil, governadores da região Norte, o tempo seco, a crise econômica, nos indígenas. Saída que vem sendo usada por Bolsonaro sempre: colocado contra a parede, foge.

Por ser um importante produtor de alimentos e commodities, o Brasil desperta a ira de setores econômicos em países concorrentes, por isso, temos visto tentativas de erguer barreiras comerciais a mercadorias brasileiras usando como argumento o desrespeito aos direitos humanos ou agressões ao meio ambiente - mesmo que o interesse seja puramente protecionista. Infelizmente, damos subsídios para isso devido a uma parte de nossa produção insistir em agir de forma predatória contra o meio ambiente e as populações tradicionais. Há atores econômicos estrangeiros que usam o discurso ambiental de forma hipócrita em nome do seu protecionismo? Sim. Outros países também poluem? Claro. Mas o Brasil está ajudando a piorar a vida no planeta com seu comportamento medieval e atacando a dignidade dos indígenas, quilombolas, ribeirinhos? Sem dúvida.

Bolsonaro pode falar bobagens em eventos que celebrem 400, 425, 473 dias de governo - ou qualquer outro show pirotécnico. Pode se lambuzar na piscina do conspiracionismo dizendo que territórios indígenas são estoques de minerais para estrangeiros - piscina no qual seus seguidores mais fiéis nadam de braçada. Pode prometer retomar a glória ignóbil do rolo compressor da ditadura, dizendo que empresários devem ocupam um "deserto verde" - deserto habitado, diga-se de passagem.

Mas, ao final do dia, a questão que precisa ser respondida por ele é se o governo está mesmo disposto a queimar dinheiro de exportações de carne, de soja, de minerais, entre outros, que ficarão bloqueadas em portos pelo mundo, acusadas de crimes contra o meio ambiente e indígenas.

Bolsonaro demonstra seu ódio e seu medo contra ambientalistas, populações tradicionais, feministas, jornalistas, promotores e procuradores, quando os ataca sistematicamente, pois são suas demandas e suas denúncias que impedem que isso vire a Casa da Mãe Joana durante sua gestão.

Mas seria recomendável que ele coloque nesse rol os empresários que não agridem o meio ambiente, nem matam indígenas. Pois se direitos forem suprimidos em nome da produção e do comércio de commodities, Bolsonaro terá que explicar a eles porque deu sua benção ao naco dos empresários desonestos, levando à perda geral de investimentos e ao boicote a produtos.

Funcionários do governo reclamaram que recebiam muitas ligações de fundos e investidores, durante a queima da Amazônia, que queriam saber se tiravam seu dinheiro do Brasil ou não. Se o presidente continuar com essas loucuras contra o país e seus moradores, recomendo que adquira mais linhas telefônicas porque as do Palácio do Planalto ficarão congestionadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto