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Leonardo Sakamoto


Banana de Bolsonaro prova que Brasil continua sendo o país do Vale Tudo

À esquerda, presidente Bolsonaro dá uma banana à imprensa; à direita, o personagem Marco Aurélio dá uma banana ao Brasil - Montagem sobre reproduções
À esquerda, presidente Bolsonaro dá uma banana à imprensa; à direita, o personagem Marco Aurélio dá uma banana ao Brasil Imagem: Montagem sobre reproduções
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

09/02/2020 10h00

Mais de 31 anos separam a banana dada ao Brasil pelo personagem Marco Aurélio, vivido pelo ator Reginaldo Faria, na icônica novela Vale Tudo, transmitida pela Rede Globo (1988-1989), e a banana contra a liberdade de imprensa encaixada pelo presidente Jair Bolsonaro, neste sábado (8), em frente ao Palácio do Alvorada.

Ele reclamava que uma declaração dada por ele - que pessoas com HIV representam "uma despesa para todos no Brasil" - havia repercutido negativamente. Culpar o mensageiro não é monopólio do atual presidente, que precisa aprender que uma democracia sobrevive sem ele, mas não sem uma imprensa livre e forte. Mas ele inventa formas novas, a cada dia, de atacar quem o questiona.

Os contextos das bananas são diferentes, até porque Marco Aurélio estava fugindo do país e não teremos a mesma sorte quanto a Bolsonaro, que deve continuar causando estragos à República.

Ambos são conhecidos, contudo, por suas declarações amorais. E se o personagem fictício era acusado de montar esquemas para desviar recursos em benefício próprio, o mesmo pode ser dito do então deputado federal, com as denúncias de funcionários fantasmas, rachadinhas e o uso indevido de um Queiroz para suas necessidades que pairam sobre ele e seus filhos.

"Você precisa fazer um personagem fascista para que as pessoas entendam o que significa o fascismo", disse Reginaldo Faria, em uma entrevista ao jornal Extra, em 2015. Tendo a discordar. Até porque, se falta amor no mundo, falta também interpretação de texto.

A novela veio a público quando o Brasil vivia um momento turbulento de sua história, em meio a uma Assembleia Constituinte que tentava refundar a democracia após 21 anos de uma ditadura de rapina dos verde-olivas e seus apoiadores parasitas da iniciativa privada (alô, ministro Paulo Guedes, olha um exemplo de uso mais adequado do termo).

O fato da atriz Regina Duarte, que viveu Raquel Accioli, mãe da gloriosa Maria de Fátima (desculpe o trocadilho), em Vale Tudo, estar na mesma novela política de Marco Aurélio, digo, Bolsonaro, ao assumir a Secretaria Nacional de Cultura, ajuda deixar mais tênue o limiar entre ficção e realidade. Ainda mais porque há quem diga que parte da equipe econômica do governo não gosta muito de pobre, como a vilã Odete Roitman - da genial Beatriz Segall.

A Nova República estava dando os primeiros passos, em maio de 1988, quando a novela veio ao ar - ela foi reprisada em 1992, 2010 e 2018. Hoje, a Nova República está sendo velada de corpo presente após o contexto que deu sustentação à retomada democrática ter chegado ao fim nas eleições gerais de dois anos atrás.

No meio tempo, tivemos o impeachment de Collor e Dilma, manifestações de ruas e greves gerais, várias crises econômicas e escândalos - Esquema PC, Compra de Votos da Reeleição, Pasta Rosa, Mensalão, Trensalão, Lava Jato. E vivemos o bastante para vermos arautos do combate à corrupção acreditarem que estavam acima da Constituição, dobrando a interpretação da lei à sua conveniência política.

As instituições que levaram três décadas para serem construídas vão se esfacelando em praça pública, atacadas pelo próprio governo. Instrumentos de controle como a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República, o Coaf, a Receita Federal, a Funai, o Ibama, entre outros, vão se submetendo à vontade presidencial.

Em meio a isso, o filho do presidente faz apologia ao AI-5, o ministro da Economia chama funcionários públicos de parasitas, o titular da Educação afirma que professores são "zebras gordas" e posta fotos de tacos de baseball com arame farpado contra estudantes. O presidente diz que adoraria mandar servidores para um centro de tortura da ditadura e confinar ambientalistas.

"Vale a pena ser honesto no Brasil?" era a grande pergunta da novela. A reflexão sobre a atualidade dessa questão deve ser feita à luz da repercussão insuficiente junto à sociedade da tentativa do presidente indicar o próprio filho ao cargo de embaixador nos Estados Unidos. "Lógico que é filho meu. Pretendo beneficiar um filho meu, sim. Pretendo, está certo. Se puder dar um filé mignon ao meu filho, eu dou", afirmou Bolsonaro, durante uma live, em julho de 2019. A nomeação não prosperou.

Vale tudo em nome de uma guerra cultural que nos empurra de volta no tempo. Enquanto isso, a geração de postos formais de trabalho cresce muito mais lentamente do que a necessidade de famílias desesperadas. E o melhor projeto que o governo propôs para isso é taxar os desempregados para gerar emprego.

Se você é trabalhador ou pequeno empresário e reclamar do cenário, não vai faltar banana para você. Todos já sabíamos disso. Bolsonaro apenas fez o favor de retirar qualquer dúvida.

Leonardo Sakamoto