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Leonardo Sakamoto


Coronavírus não prefere pobre ou rico. Mas governos e suas políticas, sim

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

15/03/2020 13h38

É claro que, para o coronavírus, não faz diferença se o hospedeiro é rico ou pobre. Mas dizer que a infecção impacta ambos da mesma forma é um equívoco.

O necessário Sistema Único de Saúde não conta com leitos e respiradores em número suficiente para absorver a demanda que se avizinha, lembrando que todos os outros problemas - das gripes comuns aos infartos e AVCs - não vão esperar na fila em respeito ao Covid-19.

Toda política global para a pandemia vem no sentido de reduzir a velocidade de contágio para garantir que doentes venham "em prestações" aos serviços de saúde e não na forma de um tsunami.

Teremos longas filas em hospitais particulares, mas nada que se compare ao que deve ocorrer com o sistema público, que atende emergências dos mais pobres. Por mais que tenhamos órgãos e servidores públicos nos níveis federal, estaduais e municipais bem dedicados a enfrentar a crise, não é possível reduzir a desigualdade estrutural de uma hora para outra.

Isso sem contar que aqueles que são vistos como a xepa da sociedade, como pessoas em situação de rua ou vivendo em moradias precárias, estão à mercê da sorte. Para muitos, não faz sentido a recomendação de lavar as mãos porque não tem acesso nem à água limpa. E trabalhadores mais pobres, como empregadas domésticas, porteiros, motoristas, faxineiros, não terão a mesma liberdade para se impor uma quarentena.

A primeira leva de infectados brasileiros contraiu a doença na Europa e nos Estados Unidos, sendo a grande maioria de pessoas com poder aquisitivo maior, o que levou a uma procura por hospitais de ponta, como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês, em São Paulo. O problema é o segundo momento, quando o vírus se replica por aqui e atinge a população que não tem dinheiro para pegar ônibus no final de semana, nem comprar dipirona.

O presidente da República pode chamar a infecção de "fantasia" à vontade, ignorando as recomendações de saúde, interagir com aglomerações. Primeiro, caso contraia, terá o melhor tratamento médico do país - pena que não se pode dizer o mesmo para os milhões que os veem como exemplo, levam a sério o que ele fala e copiam o que ele faz, tornando-se alvo da doença e vetores de sua viralização. Segundo, porque ele tem um ministro da Saúde que está sendo diligente com a crise.

Faço parte daquela parcela da população dependente de remédios para ter uma vida normal. No meu caso, coração, hipertensão, diabetes. Sou um exemplo vivo de que a humanidade consegue dar um nó na seleção natural. Não, não são os fortes que herdarão a Terra, mas quem tem a "vantagem competitiva" de contar com o melhor cuidado de saúde.

Podemos comprar remédios de ponta que funcionam e têm poucos efeitos colaterais (sucesso garantido, às vezes, graças a exigentes testes realizados à exaustão pelas maiores indústrias farmacêuticas do mundo, inclusive em milhares de "voluntários" de regiões pobres) e com passe-livre nos melhores centros de tratamento.

O coronavírus é uma pandemia sem precedentes, seja por conta da velocidade com que se espalha, seja porque mostra que sistemas públicos de saúde de países desenvolvidos estavam despreparados ou são inexistentes (como nos Estados Unidos), seja porque chega em um momento em que mais da metade do mundo se informa e espalha boatos em tempo real.

O resultado é uma parte da população que fica, como alguns de seus líderes, entre a histeria e o descaso.

A malária infectou 228 milhões de pessoas e matou cerca de 405 mil, em 2018, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Nos países onde o problema é maior, não se viu redução significativa de mortes entre 2014 e 2018. E, ao contrário do coronavírus, crianças são o grupo mais vulnerável. Estima-se também que 11 milhões de grávidas foram infectadas apenas na África Subsaariana, levando a 900 mil crianças nascerem abaixo do peso. Já peguei duas vezes, do tipo falciparum, cobrindo conflitos armados em Timor Leste e Angola e, posso atestar que, definitivamente, não é agradável.

A malária não é uma pandemia que atinge o mundo, causa dor e sofrimento, mata, arrefece e sobrevive como mais um tipo de gripe - o que deve acontecer com a atual infecção. É uma doença que mata todos os anos quase o mesmo contingente.

O coronavírus por atingir ricos e pobres, mesmo que impactando de forma desigual, levou a uma corrida para descobrir uma cura ou uma vacina, o que é fundamental. E há pesquisadores em todo o mundo dedicando suas vidas para fazer o mesmo pela malária, mas sem a mesma atenção do público e dos governantes.

Milhões de pessoas morrem anualmente no mundo por causa de doenças que poderiam ser evitadas com cuidados que passam por moradia adequado, saneamento básico, educação para prevenção, atendimento médico de qualidade. O que inclui não apenas a malária, mas também outras doenças como a nossa dengue - quase 800 mortos em 2019) ou a febre amarela.

Quando uma pessoa que tem acesso a recursos privados de saúde, como eu ou o doutor Drauzio Varella (que pegou febre amarela e narrou a experiência no belo livro "O Médico Doente"), fica ruim, há chance maior de cura do que alguém que depende de si mesmo, do poder público e de suas filas.

Além disso, a ocorrência dessas moléstias é mais intensa em regiões de fronteira agrícola, no contato do ser humano com áreas preservadas. E a periferia do planeta ainda tem muita floresta para ser vítima da ganância. Se bem que, no ritmo que andam as coisas, em breve talvez não haja mais floresta para contar história. Se isso acontecer, também não precisaremos nos preocupar com mosquitos. Aliás, com nada mais, porque teremos ajustado de vez a temperatura do planeta para "gratinar os idiotas". E aí sim, caro amigo e cara amiga, será o fim do mundo como o conhecemos.

Tudo isso para dizer que parte da população vive no século 21, enquanto outros ainda engatinham pela Idade Média. O mesmo vale para governantes.

O coronavírus veio nos lembrar disso, pois, ao que tudo indica, os mais pobres infectados vão sofrer duas vezes mais que os ricos - pela doença em si e pela sensação de abandono causado por um sistema que precisava ter sido ampliado para atender melhor o cidadão. Mas que, ao invés de injeção de recursos, recebeu sucessivas bananas de nossos gestores públicos.

E uma pá de cal chamada de Emenda de Teto dos Gastos, que limita o crescimento de investimentos públicos em saúde por duas décadas. Garantir o ajuste fiscal é importante, mas isso deve levar em conta a dignidade humana. Caso contrário, governos não fazem sentido de existir.

A crise do coronavírus deveria ser usada para refletirmos sobre as prioridades e a quem o país serve. A pandemia vai passar, mas outras tragédias continuarão.

Quem consegue jogar xadrez com a Morte (usando a imagem do recém-falecido Max Von Sydow, no filme Sétimo Selo, de Ingmar Bergman) e enganá-la por um tempo são os mais ricos, que possuem os meios para tanto. E podem se isolar e pedir comida por aplicativo, que será trazida pelos mais vulneráveis. Sobreviveremos às custas dos outros.

Os mais pobres vão se virando, apesar de tudo e de todos, ajudando com seu trabalho e, algumas vezes, como cobaias para remédios, os que ganharam na loteria da vida a terem uma existência mais feliz.

Leonardo Sakamoto