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Bolsonaro demonstra toda sua insegurança ao afirmar "o presidente sou eu"

O presidente Jair Bolsonaro em coletiva sobre o novo coronavírus - Andre Coelho/Getty Images
O presidente Jair Bolsonaro em coletiva sobre o novo coronavírus Imagem: Andre Coelho/Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

26/03/2020 21h30

Desde que começaram as crises na saúde pública, na economia e na política trazidas pela pandemia de coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro tem, repetidas vezes, reafirmado que é ele quem manda.

As constantes declarações são um indício de que nem ele tem tanta certeza disso.

"O presidente sou eu, pô. O presidente sou eu. Os ministros seguem as minhas determinações", afirmou Bolsonaro, nesta quinta (26), em frente ao Palácio do Alvorada.

Ele respondia a um questionamento sobre a declaração de seu vice, general Hamilton Mourão, de que o governo continuava com posição única, defendendo o "isolamento e distanciamento social" para combater a infecção. Bolsonaro, no já antológico pronunciamento-tragédia, de terça (24), defendeu a reabertura das escolas e do comércio e a quarentena apenas para idosos. "Pode ser que ele tenha se expressado de uma forma, digamos assim, que não foi a melhor", afirmou Mourão.

No "Baile da Máscara Cirúrgica", coletiva à imprensa, realizada no dia 18 de março, para tentar convencer a população que o presidente estava fazendo algo de útil nesta crise, Bolsonaro - depois de produzir um tutorial involuntário de como não usar uma máscara - tentou capitalizar no trabalho alheio.

Claramente ressentido pelo fato da mídia elogiar o trabalho do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e não o dele, afirmou: "se o time está ganhando, vamos fazer Justiça, vamos elogiar o seu técnico - e o seu técnico chama-se Jair Bolsonaro". Mandetta, por via das dúvidas, disse que "o presidente é o grande timoneiro desse barco".

Essa necessidade de autoafirmação em público não é de agora, mas se repete sempre que se sente ameaçado por algum subordinado.

Por exemplo, nos atritos entre ele e o ministro da Justiça, Sergio Moro, por conta das trocas no comando da Polícia Federal, ele afirmou, no dia 18 de agosto do ano passado: "quem manda sou eu, vou deixar bem claro". A declaração demonstra uma insegurança inusitada para um presidente da República. "Eu tenho poder de veto, ou vou ser um presidente banana agora?"

Ninguém o havia acusado de ser um presidente banana por conta disso, mas ele trouxe a figura à tona, mostrando que teme tal comparação.

A impressão é que ele acredita que precisa justificar o tempo todo o lugar que ocupa, talvez porque não se veja como alguém qualificado o bastante para a posição. Acha que foi indicado por Deus, certamente, mas isso é outra história que não tem a ver com competência técnica ou política. Lá no fundo, talvez acredite que, mais cedo ou mais tarde, alguém vai trata-lo como um impostor.

Afinal, como diria Baden Powell e Vinícius de Moraes, "o homem que diz sou não é".

Leonardo Sakamoto