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Bolsonaro usa cadáveres para fazer política ao chamar quarentena de inútil

Presidente Jair  Bolsonaro em Brasília -
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

30/04/2020 20h12

Apesar das quarentenas impostas por governadores e prefeitos terem reduzido o ritmo de mortes por Covid-19, Jair Bolsonaro insiste que isso não aconteceu e que as medidas de isolamento social não achataram a curva de infecção. A base científica para tanto é, provavelmente, o renomado Instituto de Pesquisa Casa 58 do Condomínio Vivendas da Barra.

Previsível, o presidente da República fez exatamente o que avisamos que faria. Mesmo assim, seu comportamento de consequências letais não deixa de ser surpreendente.

"O Supremo decidiu que as medidas para evitar, ou para fazer a curva ser achatada, caberiam a governadores e prefeitos. Não achataram a curva. Governadores e prefeitos que tomaram medidas bastante rígidas não achataram a curva", disse Bolsonaro nesta quinta (30).

Em sua live semanal, ele voltou a defender a tese: "Eu já disse, 70% da população vai ser infectada. Pelo que parece, todo empenho para achatar a curva foi inútil".

Bolsonaro sabe que o objetivo não é evitar que as pessoas contraiam o vírus, mas que isso ocorra de uma vez, o que aprofundaria o colapso dos sistemas de saúde, impedindo o tratamento e levando ao óbito mais pacientes de Covid-19, mas também de acidentados e pessoas com outras doenças. Entende que a questão é garantir que a pandemia contamine em prestações e não em um tsunami. E como ele sabe? Porque já foi alertado sobre isso por sua equipe e repetiu publicamente. Ou seja, quando ele dá declarações como as de hoje, não é ignorância. É sacanagem mesmo.

Ele havia sido informado pelo então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que, com a adoção de medidas de isolamento, a escala de óbitos não estaria nas centenas de milhares, mas poderia ficar nas dezenas de milhares. Contudo, enterrou essa informação bem fundo e apostou que a população ficaria tão espantada com a quantidade de mortos em dezenas de milhares que acreditaria quando ele dissesse que o isolamento horizontal não funciona.

Ou seja, que Jair tinha razão e que o vírus é alguma praga do Egito que pegaremos de qualquer forma, que quem não tiver "histórico de atleta como ele" terá que rezar na igreja até a exaustão e que todos deveriam ter ficado trabalhando, pois já que vamos morrer, que seja com dinheiro no bolso.

Ao tentar capitalizar para seus interesses políticos o resultado das medidas que ele mesmo atacou sistematicamente, ressignificando-os, Bolsonaro usa cadáveres para fazer política. Mostrando, mais uma vez, que está pouco interessado com a saúde da população e profundamente preocupado com seu próprio futuro.

O quanto ele puder jogar de responsabilidade nas costas de governadores e prefeitos, vai jogar. Estados e municípios deveriam, quando demandaram à União por compensação pela queda de arrecadação de ICMS e ISS, deveriam ter dobrado a fatura. Pois há um "Custo Bolsonaro", de um presidente que joga contra, que não estava considerado nos cálculos.

Enquanto isso, o Brasil registrou, oficialmente, nesta quinta, 5.901 óbitos por Covid-19.

"A curva tá aí. Partindo do princípio que o número de óbitos é verdadeiro. Cada vez mais chega informação, que no próprio Diário Oficial do Estado de São Paulo está escrito que, na dúvida, bota coronavírus. Para inflar o número e fazer uso político", afirmou o presidente.

Estudos apontam, contudo, que o número real de mortos pode ser nove vezes o que está sendo divulgado, considerando a subnotificação. Nos cartórios, há muito mais mortos por problemas respiratórios do que a média para este mês. Ou seja, exatamente o oposto ao que ele diz.

Como seu pescoço depende da retomada do país pós-Covid-19, deveria ser grato pela presença de adultos responsáveis nos governos e prefeituras que impedem que ele cause problemas ainda maiores. Mas isso significaria que ele se importa com alguém além dele mesmo e do seu clã.

E a cada declaração presidencial, o isolamento cai mais um pouco.

Leonardo Sakamoto