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Testes de Bolsonaro para covid-19 acusaram déficit crônico de transparência

18/03/2020 - O presidente da República, Jair Bolsonaro, se atrapalha ao recolocar máscara no rosto durante entrevista coletiva à imprensa sobre as medidas de combate ao novo coronavírus em Brasília (DF) - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
18/03/2020 - O presidente da República, Jair Bolsonaro, se atrapalha ao recolocar máscara no rosto durante entrevista coletiva à imprensa sobre as medidas de combate ao novo coronavírus em Brasília (DF) Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

13/05/2020 22h39

Não é possível ter certeza que um dos três testes de covid-19 atribuídos a Jair Bolsonaro pertence realmente a ele. A novela, portanto, está longe de um ponto final, o que confirma o desprezo da atual gestão com a transparência.

O governo entregou ao Supremo Tribunal Federal três laudos com resultados negativos de testes para covid-19 do presidente da República. Em dois deles, feitos pelo laboratório Sabin, ele usa codinomes (Airton e Rafael), mas constam os números de seus documentos e de sua data de nascimento. No terceiro, que foi processado pela Fiocruz, há apenas o registro "Paciente 05".

Não há um documento de uma instituição independente relacionando o resultado a ele, apenas um ofício de um médico do próprio governo afirmando isso. Pode até ser que se refira a Jair, mas dado o desapreço desta gestão por informar fatos concretos, o ofício não é prova.

A coluna apurou que o material chegou à Fiocruz em lotes identificados por códigos e assim foram devolvidos. Mas uma evidência deve ter sido produzida relacionando o resultado da análise daquele cotonete com secreção a Jair Messias, mesmo que seja pelos responsáveis pela coleta. Esperemos que o governo esclareça isso.

Por que é tão importante ter certeza sobre os resultados dos testes? Como já disse aqui, essa não seria mais uma das mentiras que o presidente conta para governar. Diz respeito a enganar a população sobre ser um agente de contaminação de uma pandemia assassina transmitida por contato social. E isso é crime comum, pois coloca a saúde de pessoas em risco.

Na já lendária reunião ministerial de 22 de abril, Bolsonaro teria afirmado que não divulgaria a "porcaria" dos exames porque isso poderia levar a um processo de impeachment. Esse relato, segundo o jornal O Estado de S.Paulo, é de pessoas que acompanharam a exibição da gravação do encontro, parte do inquérito decorrente das acusações do ex-ministro Sergio Moro contra o presidente. Por que ele teria dito isso se eles eram todos negativos?

Ignorando as recomendações médicas para se manter em isolamento de sete dias após a viagem internacional que fez aos Estados Unidos (trazendo mais de duas dezenas de infectados pelo coronavírus na bagagem) e de evitar multidões, Bolsonaro confraternizou com centenas de manifestantes pró-ditadura em frente ao Palácio do Planalto no dia 15 de março. E não só: tem sistematicamente promovido aglomerações ao fazer campanha contra medidas de isolamento social.

Ele travou uma disputa jurídica para não mostrar o resultado dos testes. O processo que acabou obrigando-o a apresentar os laudos foi movido pelo Estadão. Alegando defesa de sua "intimidade, vida privada, honra e imagem", além de segurança, quis que a população acreditasse apenas em sua palavra quando dizia que não contraiu coronavírus. Difícil.

Quando lhe interessa, Bolsonaro bombardeia as redes sociais com postagens sobre seu estado de saúde, como nas eleições, após a odiosa facada que levou em setembro de 2018. Contudo, se a informação não lhe convém, apela - de forma oportunista - para o direito à privacidade.

Infelizmente (para ele), ser presidente da República diferencia o indivíduo dos demais cidadãos não apenas pelos poderes que o cargo lhe confere, mas - principalmente - pelos deveres que é obrigado a cumprir - entre eles, a transparência sobre seus atos e sua condição. O direito à plena privacidade dos presidentes é relativizada diante do direito à segurança e à estabilidade da população.

Transparência não é concessão que governantes fazem a cidadãos, mas uma obrigação. A condição de saúde de um presidente da República não é uma questão de foro íntimo, mas de interesse público, pois situações que os incapacitam permanente ou momentaneamente causam impactos na vida das pessoas.

Quando David Uip, que coordena o Centro de Contingência ao Coronavírus do Estado de São Paulo, recuperou-se de Covid-19, Bolsonaro cobrou dele que mostrasse se havia feito uso de cloroquina em seu tratamento - medicamento que o mandatário quer ver distribuído em massa, apesar de cientistas pedirem cautela e ele mesmo ter reconhecido, nesta quarta, que não há evidências científicas de sua eficácia. Suas hordas digitais atacaram seguidamente o médico até que ele revelasse que sim.

Por que o próprio presidente se nega a dar a transparência plena que ele cobra dos outros? Bolsonaro acredita que pode fazer e falar o que bem entender, quando bem entender, da forma que bem entender. Qualquer instituição que diga o contrário e imponha limites, como vem fazendo o Supremo Tribunal Federal e sempre fez a imprensa, é alvo de ataques.

A beleza da democracia é que nós temos o direito de saber e, ele, o dever de provar que está falando a verdade. O que só cumpriu parcialmente até agora.

Leonardo Sakamoto