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Capitão e general fogem da guerra ao vírus e elegem números como inimigos

Bolsonaro faz cara de desdém - Paulo Lopes/Futura Press/Folhapress
Bolsonaro faz cara de desdém Imagem: Paulo Lopes/Futura Press/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

09/06/2020 15h37

O governo brasileiro está em guerra. O inimigo, infelizmente, não é o coronavírus, mas os dados sobre mortos e feridos pela pandemia. À frente do processo, como ministro interino da Saúde, um general da ativa, Eduardo Pazuello - que, ao que tudo indica, aceitou a árdua tarefa de confundir para conquistar.

Em reunião ministerial nesta terça (9), ele afirmou que os números nunca serão distorcidos, mas que sua pasta está buscando evitar a "subnotificação" e a "hipernotificação". Obrigado pelo Supremo Tribunal Federal a divulgar os números como fazia antes (1.272 mortos nas últimas 24 horas, totalizando 38.406, pelas contas do governo, e 1.185 e 38.497 óbitos, respectivamente, pelas da imprensa), o ministro-general segue em batalha para mudar a forma dos dados. E, neste caso, forma altera o significado do conteúdo.

Até porque pode-se contar uma mentira usando apenas verdades. Basta usar a descontextualização pertinente.

Desde que o Ministério da Saúde começou a relatar, ainda sob Luiz Henrique Mandetta, a quantidade de mortes, sabe-se que elas se referem a dados registrados nas últimas 24 horas e não às ocorridas nesse período de tempo. Devido à fila na testagem, à falta de protocolos, entre outros motivos, a informação demora para chegar às secretarias estaduais de Saúde e, de lá, para o ministério - que a consolida.

Se o governo quer reduzir a distância entre o tempo de ocorrência e o de registro, deveria testar mais a população. O Brasil faz 8,7 mil por milhão de habitantes - e ainda por cima abusando de testes rápidos, que são considerados de baixa confiança. Só por comparação: nos EUA, o índice é de mais de 59 mil/milhão, Itália 67 mil/milhão e Peru e Chile, mais de 30 mil/milhão.

Pazuello defendeu divulgar a morte pela data de óbito. Se for uma informação a mais, ótimo, até porque muitos veículos, como o UOL, já faziam esses gráficos muito antes disso ser uma "preocupação" do governo. Contudo, o número de registros em 24 horas, mesmo subdimensionado e atrasado, tem funcionado como um indicador importante da progressão da pandemia e precisa continuar tendo destaque.

Mostrar apenas os óbitos das últimas 24 horas muda a contagem repentinamente, dando a impressão de que os óbitos caíram quando, na verdade, serão computados dias depois. Isso, claro, retira por um tempo a pressão sobre a Presidência da República - que acredita que os mortos pela covid-19 querem lhe dar um golpe. Pressionado no Congresso Nacional, Pazuello disse que a mudança é apenas uma proposta. Mas seu chefe não vê assim.

"Queremos o número limpo que sirva para prognóstico e não que apenas sirva para inflar e dar notícias em órgãos de imprensa. Cada Estado que mandar os números será trabalhado e divulgar. Não queremos números mentirosos que servem para inflacionar essa questão, e de manchete para o jornal", afirmou o presidente também nesta terça.

Mudar a forma de exibição dos números, escondendo-os ou desmembrando-os faz parte desse esforço de guerra. E, em uma guerra, a verdade é a primeira vítima. Essa expressão, que virou história e é citada ad nauseam em cursos de jornalismo, foi dita originalmente pelo senador norte-americano Hiram Johnson em 1917. O médico e neurocientista Miguel Nicolelis, em uma entrevista que concedeu a Carlos Madeiro e a mim no UOL, afirmou que a crise atual vai ser lembrada como a "maior guerra da história do Brasil".

Por aqui, os fatos começaram a ser assassinados quando o presidente - sem respaldo científico algum - batizou o conflito de "histeria", "fantasia", "gripezinha", "resfriadinho". Ou, antes ainda, quando ele disse que não se beneficiou de envio ilegal de mensagens de WhatsApp em massa durante sua campanha eleitoral.

Mas Nicolelis também alertou que a quantidade de erros é um caso histórico. E que o grande fracasso do governo federal em lidar com a maior crise sanitária também vai entrar para a história.

Não deixa de ser irônico que, em nossa maior guerra, que já acumula mais de 38 mil mortos, tenhamos um capitão como presidente e um general como ministro da Saúde. E mesmo assim o governo esteja tão mal de planejamento e estratégia que chegou à suprema humilhação de descontextualizar números para fingir que está "vencendo".

Se, desde o começo, o inimigo fosse o vírus, o Brasil estaria ganhando a guerra, como a Nova Zelândia, da primeira-ministra Jacinda Ardern, a Alemanha, da primeira-ministra Angela Merkel, a Dinamarca, da primeira-ministra Mette Frederiksen. Mas Bolsonaro parece travar uma única batalha: a da sua sobrevivência política e eleitoral. O povo? Que lute.

Leonardo Sakamoto