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Com Queiroz preso, café da manhã de Bolsonaro teve laranja com Rivotril

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

18/06/2020 09h36Atualizada em 18/06/2020 14h00

O faz-tudo da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz, foi preso, na manhã desta quinta (18), em Atibaia (SP), em um imóvel de Frederick Wassef, advogado do presidente da República. Com o laranja virando suco na terra do morango, o café da manhã no Palácio do Alvorada deve ter sido tenso. Prova disso é que não fez festinha para sua claque na saída para o trabalho.

Ele estava lá hospedado há um ano, segundo o delegado responsável pela ação, enquanto os Bolsonaros afirmavam não saber seu paradeiro. Para completar, a ação do Ministério Público do Rio de Janeiro que contou com o apoio do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil também cumpriu mandado de busca e apreensão em um imóvel que era ocupado por uma assessora de Flávio Bolsonaro. O local, em Bento Ribeiro, Zona Norte do Rio, fica na mesma rua de imóvel de Jair Bolsonaro que já foi escritório político e comitê eleitoral.

Queiroz é o grande calcanhar de Aquiles da primeira-família, acusado de ser o responsável por gerenciar as "rachadinhas" dos salários de servidores de seus gabinetes e de ser uma de suas conexões com milicianos e com o Escritório do Crime, no Rio.

Se revelar tudo o que sabe, pode garantir não apenas uma cassação de mandato ou prisão ao seu ex-chefe, o então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro, mas também jogar na lama a imagem de probo que o governo de Jair Messias tem junto a seus apoiadores. De acordo com o MP-RJ, há indícios de desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro, organização criminosa.

O ex-assessor nunca foi depor pessoalmente aos promotores que investigam o caso e não havia sido preso ou detido. O que não surpreende, afinal de contas, ele carregava milhões em dinheiro público, mas não Pinho Sol.

O presidente da República costuma surtar quando ele e seus filhos estão em risco, dobrando as instituições às suas necessidades familiares. "Eu acima de tudo, filhos acima de todos", em suma. Nessas situações, é capaz até de interferir politicamente no comando da Polícia Federal para poder receber informação que proteja sua filhocracia.

Vale lembrar que o empresário Paulo Marinho, ex-aliado do presidente, afirmou que um delegado da PF avisou Flávio, com antecedência, que uma operação atingiria o faz-tudo da família em 2018, dando tempo de exonerá-lo. Já sabiam, portanto, que esse negócio de acesso privilegiado é bom e funciona.

O ponto é que os gabinetes de Bolsonaro e filhos atuavam de forma tão integrada que era praticamente impossível dizer onde terminava um e começava outro - e, portanto, suas responsabilidades. "Jair Bolsonaro, às sextas-feiras, quando deputado federal, era assíduo frequentador do gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa. Trabalhava de lá. Ele sempre controlou os mandatos dos filhos com pulso muito forte. Inclusive havia um rodízio de pessoas e parentes entre os gabinetes", afirmou à coluna o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que foi colega de legislatura de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Queiroz não era um assessor, mas uma joint venture familiar.

Ele e o clã Bolsonaro trataram o Brasil como uma nação de idiotas desde dezembro de 2018 - quando foram reveladas as "movimentações atípicas" em sua conta bancária. Alegando problemas de saúde decorrentes do tratamento de um câncer, o ex-assessor se negou a prestar depoimento pessoalmente ao Ministério Público, mandando uma carta que trouxe mais dúvidas do que respostas. Os mesmos problemas de saúde, contudo, não o impediram de continuar articulando politicamente no Poder Legislativo.

"Tem mais de 500 cargos lá, cara, na Câmara, no Senado... Pode indicar para qualquer comissão, alguma coisa, sem vincular a eles [família Bolsonaro] em nada. Vinte continho pra gente caía bem, pra c..., caía bem pra c... Não precisa vincular a um nome", diz Queiroz, em áudio de junho do ano passado revelado por O Globo, tratando a coisa pública como feira livre. "Pô, cara, o gabinete do Flávio faz fila de deputados e senadores lá, pessoal pra conversar com ele. Faz fila. P..., é só chegar, meu irmão: 'Nomeia fulano aí, para trabalhar contigo'. Salariozinho bom desse aí cara, pra gente que é pai de família, p..., cai como uma uva (sic)."

Parece negociação em boca de fumo, mas era Queiroz discutindo cargos em 2019.

Com a sua prisão, algumas perguntas podem finalmente ser respondidas:

Qual a origem da movimentação de R$ 1,2 milhão nas contas de Fabrício Queiroz, que deu origem a todo esse caso? Por que não há registros de compra e venda de carros, atividade que Queiroz usou para justificar o dinheiro? Por que funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro depositaram recursos nas contas de Queiroz? Todos os funcionários que trabalhavam nos gabinetes de Flávio e de Jair cumpriam suas atribuições diárias? Aliás, todos eles existiam como funcionários? Como foi o empréstimo que Bolsonaro diz ter feito a Queiroz, que justificaria o depósito de R$ 24 mil na conta da hoje primeira-dama e quando foram devolvidos os outros R$ 16 mil do total de R$ 40 mil citados pelo presidente? Qual as origens das outras movimentações milionárias identificadas cuja explicação dada pelo senador deixou mais dúvidas do que respostas? Por que o então ministro Sérgio Moro, com larga experiência em investigações, denúncias e julgamentos de "movimentações atípicas", não tem nada a dizer sobre o caso? Onde está a lista de assessores informais na base eleitoral de Flávio pagos com o dinheiro que Queiroz afirmava recolher dos funcionários na Alerj? Recursos públicos desviados da Assembleia beneficiaram milícias? Por que Flávio não abriu uma imobiliária ao invés de uma loja de chocolates, uma vez que sabe "fazer dinheiro" com compra e venda de imóveis? Por que a laranja dá tão bem em solo brasileiro?

Por mais que tenha ficado 28 anos no Congresso, Jair Bolsonaro nunca fez parte do centro do poder e usou isso em sua campanha eleitoral para convencer de que representaria o "novo" na política e nadaria em transparência. O problema é que a "nova política" de Bolsonaro nunca pediu ao filho e ao faz-tudo, amigo de longa data, que fossem depor no MP-RJ, independentemente de convite da instituição, para se anteciparem e esclarecerem tudo. Da mesma forma, a "nova política", que se vendia como ilibada, comprou votos através de emendas milionárias no governo a fim de garantir a aprovação da Reforma da Previdência. E vem distribuindo cargos ao Centrão para impedir um impeachment.

O capataz Queiroz é um lembrete da falta de transparência de uma família com quatro homens públicos que influenciam os destinos do país pelo fato do presidente governar como um chefe de clã. Não adianta exigir que o BNDES divulgue dados sobre empréstimos, reclamando de uma suposta "caixa preta" do Estado, se Bolsonaro ficava irritado toda vez que repórteres lhe perguntam onde estava Queiroz. Talvez por saber a resposta e não poder falar.

Queiroz havia alertado que poderia ir para o sacrifício, desde que sua família - esposa e filha, que também trabalharam em gabinetes dos Bolsonaros, ficassem protegidas. Mas a Justiça do Rio decretou a prisão de Marcia Oliveira de Aguiar, companheira do ex-assessor. E agora, Fabrício?

A questão é como reagirá Bolsonaro, que já estava ameaçando jogar os militares para cima da democracia diante do avanço do inquérito que investiga as fake news, das ações contra a sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral e dos limites impostos pelo Supremo às suas loucuras..

Vai ficar no discurso vitimista voltado para os fãs, dizendo que a investigação que busca revelar corrupção na família é uma armação para atingi-lo, e esperar para ver o que acontece? Vai sacrificar seu primogênito, torcendo para que Deus segure sua mão na hora H, tipo Abraão? Ou vai para a guerra contra as instituições de uma vez e que se exploda a República?

A única certeza é que a "pica do tamanho de um cometa", prevista por Queiroz, enfim chegou. E como se trata de uma prisão preventiva, sem prazo, ela é realmente grande.

Em tempo: Atibaia. O roteirista invisível desta pornochanchada chamada Brasil é um piadista.

Leonardo Sakamoto