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Por que o Brasil não entrou em convulsão com a montanha de mortos da covid?

Homem trabalha em meio às sepulturas do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus - EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Homem trabalha em meio às sepulturas do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Imagem: EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

23/06/2020 10h34

Quando a pandemia fez sua primeira vítima, no dia 17 de março, imaginava-se que se os óbitos por covid-19 ultrapassassem a marca de mil por dia, teríamos protestos populares contra um governo que, naquela época, já se notabilizava pelo negacionismo. O tempo passou, esse número se tornou o novo normal e a convulsão não veio. Não é apenas uma questão de que aglomerações não são permitidas, pois convulsões não consultam taxa de infecção para acontecer. Mas não significa que a insatisfação não esteja cozinhando em silêncio.

Na semana passada, aliás, tivemos o registro de mais de 1200 mortos/dia por quatro dias seguidos. Foi como se, ao menos, seis aviões da TAM, daquela tragédia terrível que matou 199 pessoas, em julho de 2007, caíssem a cada 24 horas. Ou se quase quatro e meia barragens da Vale, em Brumadinho, que gerou 259 mortos e 11 desaparecidos em janeiro de 2019, estourassem por dia. Como resposta ao registro, municípios flexibilizaram quarentenas.

Neste sábado, atingimos a marca de 50 mil mortos. Oficialmente, claro, porque na realidade ela já havia sido deixada para trás há muito tempo devido à pornográfica subnotificação. O presidente da República não se manifestou sobre isso - talvez esteja esperando chegar a 100 mil, que é um número mais redondo. Mas conclamou, novamente, prefeitos e governadores a reabrirem o comércio.

Afinal, como ele mesmo diz, todo mundo morre um dia.

Há um pequeno naco da sociedade que pouco se importa se uma montanha de brasileiros vive ou morre contanto que não seja ele. E é tapado ou egoísta o bastante para não acreditar que pode vir a ser ele. Esse grupo bomba festas clandestinas, anda na rua orgulhosamente sem máscara e acha que famílias choram por caixões cheios de pedra. Prefere vidas perdidas do que empregos fechados, porque acha que vida tem sobrando. Não está desconectado da realidade, mas acha que realidade é coisa de comunista.

Há outro maior que, diante do aumento paulatino de vítimas da tragédia, acabou por adaptar-se a ela, ignorando-a. Não por ser insensível, longe disso, mas foi a maneira que encontrou para enfrentar o medo da morte sem surtar diariamente. Porque, convenhamos, é muito fácil surtar diante do que vemos e ouvimos. Isso se manifesta de diferentes formas - de amigos nos grupos do WhatsApp que logo mudam de assunto se alguém avisa que um conhecido morreu por covid até alguém da família que, rapidamente, abaixa o som da TV ou engata uma conversa para não ouvir a atualização do número de óbitos do dia.

E há aquele que foi escolhido pela sociedade para ir para o sacrifício, entregando comida, transportando pessoas, recolhendo o lixo (e, em alguns lugares, lavando cuecas e varrendo a casa de terceiros). Ou simplesmente buscando sobreviver porque o maravilhoso sistema digital do auxílio emergencial decidiu que fome não é indicativo de pobreza. Esse naco sabe dos riscos que corre, mas vai fazer o quê?

Se ainda se chamasse Queiroz, estaria nas preces do presidente. E teria a conta do hospital chique paga em dinheiro vivo por gente famosa quando contraísse covid. Encara, portanto, com raiva ou resignação o número de vítimas diárias. Sabe que o próximo pode ser ele. Lamenta os conhecidos que já se foram. E faz piada com sua própria condição, porque o escárnio é a única coisa que lhe resta.

Estamos vivendo a pior guerra de nossa história, como disse o médico e neurocientista Miguel Nicolelis. Entende-se que é mais difícil sentir revolta de um vírus do que de uma pessoa, devido ao fato do corona não ter preferências sobre vítimas, afinal é um vírus. Mas ele tem aliados, como governantes que através de seu negacionismo e de sua incompetência ajudaram-no a se espalhar.

Jair Bolsonaro vem trabalhado arduamente na terceirização de responsabilidades, mentindo ao dizer que o Supremo Tribunal Federal estabeleceu que são prefeitos e governadores e não ele os únicos responsáveis pela implementação de políticas contra a covid. Não quer a pecha de ter ajudado o inimigo e, portanto, de ser um traidor.

Há uma simpatia que surge por líderes em momentos de guerra, que tendem a aumentar a popularidade. No Brasil, onde não temos um líder, a aprovação do governo se mantém como alertei aqui que aconteceria dois meses atrás, devido ao pragmatismo de sobrevivência de uma parcela da população que recebe o auxílio.

Enquanto ele estiver sendo pago (e, pelo bem do povo, esperemos que continue) e megamanifestações de rua estiverem desaconselhadas do ponto de vista sanitário, Bolsonaro vai se mantendo.

Mas mesmo sob o risco da covid-19, o descontentamento ganhou as ruas na forma de importantes manifestações contra o racismo e o fascismo. Afinal, o Estado brasileiro é projetado para matar pobres e negros, seja pela ausência de políticas públicas que poderiam salvar vidas, seja pela violência policial - que continuou provocando dor e sofrimento em comunidades refugiadas dentro de suas casas na pandemia.

Com o arrefecimento da pandemia, a tendência é que esse descontentamento cresça e vá para o asfalto e o chão de terra. A questão é saber se diante disso, militares e policiais cerrarão fileiras junto à República do Queiroz, tratando a população como inimiga, ou manterão a dignidade dos que respiram a Constituição.

O mais preocupante, contudo, é imaginar que o presidente torce em silêncio por uma convulsão social "como no Chile", como ele mesmo gosta de ressaltar, a fim de justificar cavalos para cima de jovens, fuzis contra movimentos sociais, cabos e soldados contra instituições e um novo AI-5 na forma de um B-17.

Leonardo Sakamoto