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Silêncio de Bolsonaro após 50 mil mortes lembra que covid não é prioridade

Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido)                              -  EVARISTO SA/AFP
Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) Imagem: EVARISTO SA/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

21/06/2020 19h34

Quem esperava uma palavra de conforto ou pesar por parte do presidente da República devido à marca de 50 mil óbitos por covid-19, ultrapassada neste sábado (20), decepcionou-se. Na escala de importância, 50 mil brasileiros mortos foram menos relevantes que a prisão de Fabrício Queiroz, que estava escondido na casa do advogado de Bolsonaro. Tanto que, poucas horas depois do faz-tudo da família ter sido levado ao presídio de Bangu, o presidente se manifestou em uma live.

Mas, talvez, tenha sido melhor assim. Cobrado publicamente a dar uma declaração às famílias das vítimas, em 2 de junho, afirmou: "eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo o mundo". Se for para repetir a mesma coisa, melhor será manter a boca cheia de laranja.

O presidente pode até vir a público, após a repercussão negativa de seu inexplicável silêncio, e dizer algo. Mas terá se passado mais de um dia da divulgação do número e, portanto, soará mais como ação estratégica pela redução de danos em sua imagem do que uma demonstração legítima de solidariedade.

Neste domingo (21), ele viajou ao Rio de Janeiro para participar do funeral do soldado Pedro Lucas Ferreira Chaves, que morreu quando seu paraquedas não abriu corretamente durante um treinamento. Disse, na homenagem, que "pior que a dor da derrota é a dor da vergonha de não ter lutado". E emendou com "nossa missão é defender a pátria, a nossa liberdade e os interesses da maioria do nosso povo".

Se levasse a sério suas próprias palavras, Bolsonaro deveria estar sentido uma vergonha incapacitante, daquelas que dificultam que encaremos as pessoas nos olhos. Pois seu negacionismo militante impediu que o país planejasse o enfrentamento da doença, causando dor aos infectados e às suas famílias.

Mas não é possível dizer que não lutou. Lutou, bravamente, em nome do coronavírus, sendo reconhecido como um de seus maiores defensores em todo o mundo. Batalhando para derrubar quarentenas e oferecendo inúteis "elixires mágicos", ajudou a catalisar o vírus em todo o país.

Considerando que estamos vivendo uma guerra biológica o fato de aliar-se ao inimigo transforma Bolsonaro em um traidor. Se os tribunais não o julgarem como tal, a História fará esse serviço.

Equivoca-se, porém, ao dizer que sua missão são "os interesses da maioria do nosso povo". O nosso povo está morrendo de covid-19 ou de outras enfermidades por conta da superlotação do sistema público de saúde enquanto o presidente tenta mitigar a gravidade da doença, questionando a contagem de mortos. Os interesses do povo são um governante que pense em salvar vidas. Sua missão, na verdade, é salvar-se a si e aos seus.

Tentando interferir politicamente na Polícia Federal para garantir informações a respeito de investigações sobre sua família e amigos. Atacando o Supremo Tribunal Federal quando ele autoriza operações contra grupos de ódio que atuam para protegê-lo. Permitindo que o demissionário Abraham Weintraub fuja para os Estados Unidos com passaporte diplomático. Buscando uma saída para que o escândalo Queiroz não o leve para a lama junto com o filho, o senador Flávio Bolsonaro.

Focado em si mesmo, ele trata a tragédia como se fosse algo natural - menosprezo que é fruto de uma narrativa que buscar terceirizar sua responsabilidade. Por que se elas acontecem de qualquer forma, como ele prega, nada que o mandatário faça pode interferir no curso natural da doença, correto?

"Vão morrer alguns pelo vírus? Sim, vão morrer. Se tiver um com deficiência, pegou no contrapé, eu lamento", disse Bolsonaro no dia 20 de março. "Infelizmente algumas mortes terão. Paciência, acontece, e vamos tocar o barco. As consequências, depois dessas medidas equivocadas, vão ser muito mais danosas do que o próprio vírus", afirmou em 27 de março. "Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia", disse no dia 29 de março. "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", disse em em 28 de abril."Está morrendo gente? Tá. Lamento? Lamento, lamento. Mas vai morrer muito, muito, mas muito mais se a economia continuar sendo destroçada por essas medidas [de isolamento social]", afirmou em 14 de maio.

O presidente segue apostando que dezenas de milhares de mortes irão impactar menos no povão do que milhões de desempregados. Preocupa-se, então, em transferir a culpa pela queda no PIB a prefeitos e governadores, pensando em sua reeleição.

Na semana que passou, tivemos quatro registros de mais de 1200 óbitos diários. Era como se tivessem caído seis aviões da TAM da tragédia de 2007 por dia duramente quatro dias.

A morte de 50 mil pessoas por um vírus não faz sentido algum em um país em que o povo é a prioridade de seus governantes. No Brasil, é "paciência, acontece, e vamos tocar o barco".

Leonardo Sakamoto