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Guedes cria sua "cloroquina" e prova ser o mais bolsonarista dos ministros

O ministro da Economia, Paulo Guedes, bate boca com deputados em audiência sobre a reforma da Previdência - André Coelho/Estadão Conteúdo
O ministro da Economia, Paulo Guedes, bate boca com deputados em audiência sobre a reforma da Previdência Imagem: André Coelho/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

15/07/2020 09h50

O sadismo de Jair Bolsonaro e a insensibilidade de Paulo Guedes se completam. Após o primeiro ter estendido a duração da pandemia no Brasil através do seu negacionismo, aumentando o número de mortos e de desempregados, o segundo aproveita o ambiente de terra arrasada como justificativa para reduzir a qualidade de vida dos trabalhadores.

Conforme revelado por Antônio Temóteo, do UOL, Guedes vai tentar novamente a aprovação do sistema de capitalização, em que cada trabalhador é obrigado a fazer sua própria poupança para a aposentadoria, e aprofundar o regime de contratação por hora, mais precário.

Ou seja, sem nenhum pudor vai usar o desemprego e a fome deixadas pela crise sanitária para aprovar uma agenda de violenta redução de proteção social.

Como já disse aqui, em naufrágios, os mais vulneráveis deveriam ser considerados prioridade nos botes salva-vidas. Na vida real, contudo, o que vale é a vontade do mais forte. Essa é a lógica adotada em momentos de crise: os mais pobres ajudam os mais ricos a permanecerem seguros, entregando sua comida, limpando sua sujeira. Depois, são deixados à deriva. Pior, são obrigados a puxar os botes dos ricos a nado.

E como gosta de repetir Jair Bolsonaro: "o trabalhador vai ter que decidir se quer menos direitos e emprego, ou todos os direitos e desemprego". Essa é a falsa dicotomia que é colocada na mesa com as propostas de Guedes devido à incapacidade do governo elaborar e implementar um plano de geração de empregos de qualidade. O ministro só pensa em corte de custos para as empresas, desconsiderando que estamos falando de vidas.

O sistema de capitalização - seu sonho de consumo e o de dez entre cada dez bancos e instituições financeiras - foi defenestrado da Reforma da Previdência pelo Congresso Nacional após repúdio popular no ano passado. Porém, para Paulo "Não se assustem se alguém pedir o AI-5" Guedes, a vontade dos trabalhadores é apenas um detalhe. A questão é apenas o ambiente certo.

O Chile conseguiu implementar o sistema porque estava sob a ditadura do general Pinochet - que passou por cima de dissidências e realizou cortes em educação, saúde, habitação para ajustar o custo. Por aqui, o ambiente que ele imagina é um país arrasado pela pandemia, com um governo autoritário e a possibilidade de compra de votos de parlamentares.

O ministro usou repetidas vezes o país sul-americano como "exemplo de sucesso" do sistema. Porém, por lá, milhões foram às ruas nos últimos anos para protestar contra o processo de empobrecimento dos idosos trazido pelo modelo defendido por Guedes. A promessa foi de que as pessoas que contribuíam regularmente ao sistema de aposentadorias receberiam 70% de seu último salário. A realidade é que a mediana da taxa de retorno de todas as pessoas que participam da capitalização é de 20%.

Da mesma forma que Bolsonaro usou a cloroquina para esconder o fato que não sabia liderar o país durante uma crise de grandes proporções, Guedes quer nos enfiar goela abaixo o sistema de capitalização e uma nova rodada de Reforma Trabalhista diante de sua incapacidade de criar empregos.

O problema é que isso tende a ser visto como um grande dumping trabalhista. "O presidente Bolsonaro deu passos significativos para trás em relação às proteções para trabalhadores no Brasil. Continua ameaçando enfraquecer os direitos trabalhistas para aumentar a criação de empregos." A declaração está em uma carta enviada por 24 deputados da Comissão de Orçamento e Tributos do Congresso norte-americano ao representante do Comércio do governo Donald Trump, Robert Lighthizer no mês passado. Ou seja, não é um bando de "comunistas".

"Esse tipo de desrespeito ativo pelos direitos básicos dos trabalhadores e pelas normas trabalhistas deve desqualificar o Brasil de ser considerado um parceiro apropriado para uma parceria econômica mais estreita, muito menos um acordo de liberalização comercial que comprometerá a competitividade, os salários e os direitos dos EUA trabalhadores", diz outro trecho do documento. Mais direto só se desenhasse.

Após um ano e meio de governo, Bolsonaro não apresentou nada que se assemelhasse a uma política nacional de geração de empregos. Trouxe simulacros mal-feitos, como o programa Verde e Amarelo, nunca escondendo que, na sua opinião, a saída é o fim das proteções trabalhistas e a desregulamentacão do trabalho. Veio a pandemia e o Brasil demorou para adotar medidas econômicas de mitigação de seu impacto. Guedes dizia que com R$ 5 bilhões tudo se resolveria e que o enfrentamento da crise deveria ser feito através da aprovação das reformas. Daí, propôs R$ 200 para os trabalhadores informais se virassem por mês. Graças ao Congresso, o vale virou renda básica de auxílio emergencial.

Ele não consegue se colocar no lugar de um trabalhador pobre, entender suas demandas e necessidades e perceber que a vida não é uma grande fórmula numa planilha de Excel. Não é de se admirar, portanto que proponha esse tipo de coisa agora.

A questão é se o Congresso Nacional está na mesma onda de sadismo e insensibilidade que o presidente e o ministro da Economia ou impedirá que, mais uma vez, os pobres sejam os responsáveis, com o seu sacrifício, por remar o país para longe da crise.

Leonardo Sakamoto