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Covid em Bolsonaro mostrou que cloroquina não é eficaz, diz infectologista

Bolsonaro ergue cloroquina para apoiadores                              - Reprodução/Facebook
Bolsonaro ergue cloroquina para apoiadores Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/07/2020 20h31

"O próprio presidente demonstrou que a cloroquina não tem eficácia contra a covid por conta da demora em estar livre do vírus." A avaliação foi feita à coluna pelo infectologista Marcos Boulos, ex-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e integrante do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo. "Ele evoluiu como a maior parte das pessoas, bem e independente do uso de qualquer medicamento", avalia.

A hidroxicloroquina vem sendo recomendada por Jair Bolsonaro para o tratamento da doença, apesar da esmagadora maioria dos médicos e cientistas afirmarem que ela não tem eficácia comprovada, especialmente para casos leves e moderados. Pelo contrário, traz riscos de graves efeitos colaterais.

Bolsonaro havia anunciado, no dia 7 de julho, que seu exame deu positivo para covid-19. E apenas no dia 25 de julho, no quarto teste, é que voltou a indicar negativo. Para Marcos Boulos se o produto fosse realmente eficaz para a covid, o resultado negativo viria antes, até porque o presidente apresentava bom quadro clínico, tanto que continuou trabalhando.

O mandatário já defendia o uso do medicamento antes de contrair o coronavírus, tendo se transformado em seu garoto-propaganda após infectado. Isso levou muita gente a acreditar que ele funciona, o que - segundo infectologistas - contribuiu para reduzir a preocupação com o isolamento e o distanciamento social.

Além disso, o governo centrou esforços na produção e aquisição de hidroxicloroquina, deixando em segundo plano medicamentos que são efetivamente importantes para garantir a vida e o conforto dos doentes mais graves. Nesta segunda (27), o Brasil atingiu 87.679 mortos pela covid.

Para irritar os críticos, Bolsonaro protagonizou cenas insólitas, seja ao erguer uma caixa do medicamento para ser ovacionada por seguidores, seja ao mostrá-la para as emas que habitam os jardins do Palácio do Alvorada. Como efeito colateral, o debate sobre o remédio afastou a atenção sobre a investigação sobre a prisão do ex-faz-tudo da família, Fabrício Queiroz, e do inquérito que apura fake news e envolve seus aliados.

Seguidores do presidente absorveram a cloroquina como uma cura que, na visão deles, vem sendo escondida por uma conspiração a fim de manter a população com medo e deprimir a economia através de quarentenas desnecessárias. Mas se tornou também a representação palpável da negação ao conhecimento científico.

A pandemia gerou um sentimento de impotência diante da falta de informação sobre os efeitos e o tratamento da covid-19, uma doença nova e que, por causa disso, ainda está em estudo. Essa incerteza abriu espaço para que o presidente preenchesse lacunas, apontando soluções que não resolvem. Parte da população abraçou essas soluções em busca de alguma coerência para suas vidas.

Leonardo Sakamoto