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Leonardo Sakamoto

Guedes fala de impeachment de Bolsonaro, que só pensa em sua reeleição

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

12/08/2020 04h03

É didático ver o ministro da Economia ameaçando publicamente o presidente da República, caso ele não siga a cartilha do mercado. Didático para Paulo Guedes, claro. Desde o começo da parceria do neoliberalismo com a extrema-direita violenta, parte da elite achou que poderia tutelar o capitão. Aprende a duras penas que é ela quem deve ganhar um tutor.

"Os conselheiros do presidente que estão sugerindo pular a cerca e furar teto [dos gastos] e vão levar o presidente para uma zona de incerteza, uma zona sombria. Uma zona de impeachment de responsabilidade fiscal. E o presidente sabe disso e tem nos apoiado", disse Paulo Guedes esta terça (11).

Sombrio é um ministro da Economia que reclama que empregada doméstica estava viajando demais para a Disney e que afirmou que rico sabe poupar, já pobre consome tudo. Incerteza é o que transmite parte da imprensa ao ouvir economistas ligados a uma única corrente de pensamento e apenas representantes de empresários, esquecendo os de trabalhadores quando o assunto é política econômica.

Além do mais, se alguém precisa reafirmar publicamente que tem apoio de alguém é porque não sabe se tem. Como diriam os sociólogos Baden Powel e Vinícius de Moraes, "o homem que diz 'sou' não é".

Após conversar com Rodrigo Maia (DEM-RJ) e com o líder do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), Guedes deixou um impeachment à mostra para ver se assusta o presidente. Bolsonaro é tosco, mas não é burro. Não vai dar as costas para o capital, mas irá pressionar. Precisa de dinheiro para obras de retomada da economia e para o seu Bolsa Família 2.0, a fim de garantir a reeleição. E, no segundo mandato, implementar seu reinado de terror.

Seus sócios da elite podem até rosnar, mas não vão abandoná-lo. Eles têm outra alternativa no curto prazo? Se com uma montanha de 103 mil mortos, ele vai segurando a popularidade, acham que vai ser fácil trocar por um Hamilton Mourão com base em pedaladas fiscais? Vão fazer resistência, mas, ao fim, algo irão ceder.

Nas eleições, a "tribo dos nobres que não pagam dividendos" viu no capitão reformado alguém útil para privatizar estatais a preço de banana, diminuir até zerar o controle e a regulação sobre o meio ambiente, desregulamentar o mercado de trabalho, em suma, realizar sua festa do caqui. Quando a Reforma da Previdência foi aprovada em seu governo, ela bateu palmas e gozou - não necessariamente nessa ordem.

Agora, com a saída de boa parte da equipe de Paulo Guedes, a tribo vai percebendo que as coisas não serão tão fáceis assim. Ele precisa de dinheiro para sobreviver e ela vai ter que aceitar entregar se tiver esperança de ver sua pauta parcialmente aprovada. Melhor a promessa de uma privatização na mão do que 15 estatais voando.

Aliás, uma parte da elite econômica não se importa se o Centrão é comprado à vista ou em 24 prestações. Esse mimimi de nojinho de corrupção desaparece quando é para adquirir uma Reforma Trabalhista, uma Reforma da Previdência ou uma Emenda do Teto dos Gastos.

Essa última limitou o crescimento de gastos públicos ao ritmo da inflação por duas décadas, criando problemas para áreas como saúde e educação. É questão de matemática. Se fossemos um país desenvolvido, apenas administraríamos os serviços de qualidade que existem. Mas estamos longe disso.

O teto dos gastos não estava em um nenhum plano de governo eleito e só foi aprovado por que era filho bastardo do impeachment com o governo de Michel Temer.

Já naquela época avisamos que essa cueca apertada iria esgarçar até ceder em algum momento, quando a sociedade crescesse e o tamanho do Estado não conseguisse atender às exigências constitucionais mais básicas. O que não imaginamos é que uma pandemia assassina adiantaria as coisas.

Bolsonaro, que de início ofereceu R$ 200 de auxílio emergencial deveria acender uma vela para o Congresso Nacional. Com a aprovação de um valor entre R$ 600 e R$ 1200 por três meses, depois estendido por mais dois, ele viu seus índices de popularidade subirem entre os mais pobres.

Experimentou uma queda de nove pontos entre as pesquisas Datafolha de dezembro de 2019 e de maio deste ano entre os que recebem mais de 5 e 10 salários mínimos. O grupo conta com acesso à informação e engrossou a insatisfação contra o presidente por conta de seu comportamento negacionista e de suas políticas terraplanistas diante da crise sanitária.

Mas também um aumento de nove pontos no grupo de até dois salários mínimos. Grande parte dele já ganhava o Bolsa Família e passou a ter o valor do auxílio depositado no cartão, sem precisar fazer requisição. Esse grupo é numericamente maior que a classe média e fundamental para a reeleição. Como esta coluna vem falando desde que o auxílio foi aprovado, ele tem tudo para herdar a base lulista.

Para tanto, o valor do Renda Brasil não pode ser tão próximo daquele do Bolsa Família (que paga, em média, um pouco mais de R$ 190) e o número de beneficiados deve ser significativamente maior que as 14,28 milhões de famílias atendidas pelo programa.

Uma ação de renda mínima pode ajudar Bolsonaro a se reeleger e depende de uma revisão do teto de gastos. Esse projeto é pauta histórica dos progressistas e precisa ser apoiado independentemente de quem seja beneficiado politicamente - claro, se não vier nos moldes do vale-coxinha pensado por Guedes, mas tiver sustância para tirar milhões da pobreza extrema.

Mordendo renda e patrimônio dos super-ricos e não sendo, como este governo tanto gosta de ser um Robin Hood às avessas, tirando alguns benefícios dos pobres CLT e destinando-os para os pobres informais.

É possível que, negociando aqui e comprando ali, Bolsonaro tenha votos para flexibilizar a lei em nome do Renda Brasil. Temos um Brasil em escombros para reconstruir assim que o coronavírus passar. Nesse contexto, manter o teto de gastos a partir do ano que vem, quando não teremos mais o estado de calamidade, será delinquência social.

Não é só nosso país, o mundo está com lama até as narinas e vai ter que imprimir dinheiro, torrar reservas, pegar de quem tem mais. Novos parâmetros de saúde financeira terão que ser definidos. Caso contrário, a realidade vai devorar qualquer político que não entender isso.

Pelo desespero de Guedes, isso foi devidamente desenhado a Bolsonaro, com lápis de várias cores, por parte de seus ministros. E ele já compreendeu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto