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Leonardo Sakamoto

Esquerda de SP observa Lula, Marta e Bolsonaro para planejar as eleições

21 mai. 2012 - Ex-presidente Lula conversa com a então senadora Marta Suplicy - Ale Vianna - 21 mai. 2012/Brazil Photo Press/AE
21 mai. 2012 - Ex-presidente Lula conversa com a então senadora Marta Suplicy Imagem: Ale Vianna - 21 mai. 2012/Brazil Photo Press/AE
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/09/2020 04h03

"Eleição de São Paulo? Agora? Putz... Faz um favor: liga para mim no final de setembro?" A resposta, com pequenas variações, foi ouvida um rosário de vezes na última semana, ao ouvir a coluna perguntar sobre o pleito adiante. Quadros de partidos da esquerda e ao centro foram procurados para ajudar a capturar uma fotografia da corrida pela prefeitura da capital paulista neste momento.

Toparam falar após insistência, com a promessa de anonimato e a advertência de que "tudo pode mudar". Com base nisso, seguem abaixo dez coisas que eles sabem e você deveria saber sobre a esquerda na eleição paulistana.

"O quadro está se compondo agora. Tem peças no tabuleiro se mexendo." A declaração de um grão-petista retrata bem a situação de poucas certezas na sucessão na capital paulista. Entre elas, de que será uma eleição casca grossa para a esquerda. E a de que o atual prefeito é favorito.

"Nesta época, há quatro anos, a imprensa estava revirando a administração do [Fernando] Haddad do avesso. Com a pandemia, o Bruno [Covas] se livrou dessa", aponta outro nome da oposição.

Se entrar na disputa, Marta pode embaralhar votos

Guilherme Boulos (PSOL) e Jilmar Tatto (PT) começam a campanha disputando quem será o nome que, na reta final, receberá o voto útil da esquerda em uma tentativa de colocar alguém desse campo no segundo turno.

Boulos, que recebeu apoio de intelectuais e nomes históricos do PT, acredita que vai fagocitar parte do voto petista e que contará com o apoio da periferia. Já Tatto crê que o apoio explícito de Lula em vídeo, a militância do partido e a sua base histórica na zona Sul da cidade vão fazer chover na sua horta.

Marta Suplicy (Solidariedade), com recall na periferia, tem potencial de embaralhar tudo se entrar na disputa como candidata ou como vice. O ex-governador Márcio França (PSB) também acredita no recall, mas implodiu algumas pontes com a esquerda ao aparecer ao lado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). E o deputado federal Orlando Silva (PC do B) e o ex-deputado federal Eduardo Jorge (PV) disputam para marcar posição e fazer bancada na Câmara dos Vereadores.

Antônio Carlos Mazzeo (PCB), Antônio Carlos Silva (PCO), Vera Lúcia (PSTU) e Vivian Mendes (Unidade Popular) completam a lista de políticos de esquerda entre os pré-candidatos.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), atualiza informações sobre a situação do coronavírus em São Paulo - Newton Menezes/Futura Press/Estadão Conteúdo - Newton Menezes/Futura Press/Estadão Conteúdo
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), atualiza informações sobre a situação do coronavírus em SP
Imagem: Newton Menezes/Futura Press/Estadão Conteúdo
Covas é visto como favorito ao enfrentar doença e pandemia

Bruno Covas (PSDB) é visto, neste momento, como favorito por lideranças de partidos à esquerda e centro ouvidos pela coluna. Em uma campanha mais curta, em que a covid-19 domina o debate público e com uma profusão de candidatos, a vantagem é de quem tem o mando de jogo, ou melhor, a máquina da prefeitura.

Mas isso não é o fator principal. Adversários afirmam que Covas demonstrou resiliência diante de um câncer agressivo, mantendo sua rotina de trabalho durante a pandemia. "A imagem que ficou é de uma pessoa jovem que, mesmo doente, estava preocupada com quem estava doente", afirma um grão-tucano. "É uma das ideias mais fortes do cristianismo: o autossacrifício em nome de terceiros." Uma liderança petista concorda. "É uma narrativa forte. A cidade tem 'trauma' de prefeitos que abandonaram o mandato."

A questão do vice na chapa de Covas, aliás, é um grande elefante na sala nesta eleição. Pois a questão da saúde do prefeito aumenta a importância da função. Parte do tucanato prefere uma chapa "puro sangue". Fala-se da senadora Mara Gabrilli — que teria que renunciar ao cargo tendo mais seis anos e meio de mandato pela frente. E há diálogos inclusive com Marta Suplicy (ver "Fator Marta" a seguir).

Todos querem candidatura única (desde que o candidato seja eu)

Boulos tem arregimentado apoio de petistas, como o ex-chanceler Celso Amorim e a filósofa Marilena Chauí, além de nomes como Chico Buarque e Caetano Veloso, que defendem que o PT o apoie formalmente devido à atual falta de expressividade de Tatto. Acreditam que uma vitória em São Paulo ajudará a conter o projeto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O ex-deputado federal e ex-secretário de Transportes, Jilmar Tatto, afirmou, em entrevista à revista Fórum, que aceitaria participar de primárias para definir o candidato do campo de esquerda à prefeitura.

"A questão é quem votaria nessa eleição. Provavelmente, seriam os filiados de cada partido. Se Lula reafirmar que seu candidato é Tatto e pedir para que o voto seja nele nessas primárias, ele leva. Sem contar que a intelectualidade da Vila Madalena e o MTST não têm voto suficiente para ganhar da base dos Tatto na periferia", afirma um petista.

O candidato derrotado à Presidência pelo PSOL em 2018, Guilherme Boulos, participa de ato organizado por centrais sindicais e movimentos sociais para lembrar o Dia do Trabalho, nesta quarta-feira, 1º de Maio, no Vale do Anhangabaú, região central de São Paulo - Alice Vergueiro/Estadão Conteúdo - Alice Vergueiro/Estadão Conteúdo
O candidato derrotado à Presidência pelo PSOL em 2018, Guilherme Boulos, participa de ato organizado para lembrar o Dia do Trabalho
Imagem: Alice Vergueiro/Estadão Conteúdo
Um olho na Câmara dos Vereadores, outro em 2022

São Paulo corre o risco de ter duas dezenas de candidatos à prefeitura. Isso não se deve à existência de diferentes projetos para a cidade, mas resultado do fim das coligações para a eleição de vereadores. Antes, os partidos menores se juntavam aos maiores para aproveitar seus puxadores de votos. Agora, só é possível coligação para o cargo de prefeito.

Há partidos de esquerda e do centro que preferem lançar seus próprios candidatos à prefeitura apenas para ajudar na eleição de uma bancada na Câmara dos Vereadores. Isso pulveriza candidaturas ao Executivo.

Outro elemento é a questão da disputa pela hegemonia no futuro da esquerda em São Paulo. O orçamento da capital paulista perde apenas para os da União e do Estado de São Paulo e, portanto, é visto como peça-chave para projetos à Presidência em 2022.

"O PT apoiar o [Marcelo] Freixo no Rio ou a Manoela [dÁávila] em Porto Alegre seria uma coisa. Em São Paulo, é diferente", afirma um líder de um partido de esquerda sem candidato próprio. "Quem foi dono do latifúndio tem dificuldade em dividir a horta comunitária."

Choque antipetismo X antibolsonarismo

Umas das principais críticas apontadas por lideranças dos partidos de esquerda à gestão Bruno Covas é a falta de uma marca. "Marta tinha CEUs e bilhete único, Kassab tinha o Cidade Limpa, Haddad tinha as ciclovias. Qual a do Bruno?", questiona um deles.

Mesmo sem ter feito nenhum programa relevante, o prefeito vai se vender como 'o governo da estabilidade', a pessoa que conseguiu atravessar a cidade em meio à pandemia, afirma um dos ouvidos pela coluna.

"Ironicamente, contribuiu para a imagem de discrição do prefeito, que ele certamente usará na campanha, o comportamento de 'apresentador de reality show' assumido pelo governador João Doria", analisa outro. O antipetismo ainda é forte na capital paulista, apesar de bem menor que em outros momentos por obra da gestão Bolsonaro. Ao mesmo tempo, há um crescente antibolsonarismo. "Candidaturas ao centro podem se beneficiar dessa fadiga de discussão", afirma um deputado federal.

O Fator Luiz Inácio

Desde que saiu da cadeia, em novembro do ano passado, o ex-presidente Lula já foi declarado morto politicamente por uns e aclamado como o grande eleitor do Brasil por outros. Os ouvidos pela coluna afirmaram que sua capacidade de mobilização ainda é considerável, mas não é tão grande como antes por que há outros elementos em jogo, como o Fator Jair Messias (ver abaixo).

Nomes do PT apostam que no momento em que Lula aparecer abraçado com Jilmar Tatto na propaganda eleitoral na TV e na internet, sua intenção de voto vai de 2% para, ao menos, 10%. No cenário atual, claro, pois o Fator Marta (ver logo após o Fator Jair Messias) pode embolar ainda mais o meio de campo da esquerda. Por isso, há uma ansiedade na campanha de Tatto pelo abraço de Lula.

"Lula se meteu em uma encruzilhada. Vai jogar todas as fichas no Tatto sob o risco de terminar em terceiro, quarto lugar?", questiona um petista ouvido pela coluna. "A única certeza é que, no final, independente do resultado, não vai dar o braço a torcer."

                                 Crescimento da popularidade de Jair Bolsonaro está relacionado ao auxílio emergencial                              - CAROLINA ANTUNES/PR                             - CAROLINA ANTUNES/PR
Apoio de Bolsonaro ainda não foi definido e sua participação mudaria quadro das eleições em SP
Imagem: CAROLINA ANTUNES/PR
O Fator Jair Messias

Bolsonaro não declarou apoio a ninguém em São Paulo. Ainda. Pode estar esperando para ver o que acontece no segundo turno e ir contra quem estiver mais à esquerda. O silêncio faz sentido, pois não seria bom apostar em uma candidatura que "flope" desde o início.

"O que o Bolsonaro vai fazer importa. Um exemplo: se ele não tiver candidato, um discurso anti-Bolsonaro faz qual sentido? É a primeira vez na história da cidade em que não sabemos o candidato do presidente da República", afirma um dos ouvidos pela coluna. "Ele não está em um mau momento, tampouco está decolando como seus fãs acham. Terá peso."

Outros lembram que o pagamento do auxílio emergencial (as cinco parcelas de R$ 600 ou R$ 1200 e as quatro de R$ 300 ou R$ 600) pode ajudar a transferir a influência eleitoral de Lula para Bolsonaro na periferia. O presidente conseguiu capitalizar para si a paternidade da transferência de renda, o que melhorou sua popularidade em locais mais pobres. Ao mesmo tempo, perdeu apoio na classe média durante a pandemia.

O Fator Marta

Há alguns elementos que podem alterar substancialmente o quadro da eleição paulistana e o futuro de Marta Suplicy é um deles. Seu nome ainda é forte na periferia de São Paulo, onde sua gestão como prefeita pelo PT deixou marcas como o bilhete único, os CEUs e os corredores de ônibus. A coluna falou com fonte no Solidariedade, seu atual partido, que defende que ela seja candidata — principalmente para ajudar na eleição da bancada de vereadores.

Caso ela entre na disputa, pode fragmentar ainda mais o eleitorado à esquerda, levando uma parte dos votos que seria de Jilmar Tatto. Na eleição de 2016, João Doria perdeu apenas em dois bairros — Parelheiros e Grajaú—, onde Marta foi a vencedora. Ela sempre contou com boa votação na região de influência da família Tatto, na Zona Sul do município.

Marta já foi cortejada por Lula e pelo Partidos dos Trabalhadores. Petistas afirmam que sua presença na chapa seria mais benéfica para a chapa de Tatto do que tem sido a da deputada federal Luiza Erundina como vice da chapa de Boulos. Mas ela também trava um diálogo com a própria campanha de Covas, que vê nela uma chance de tentar abocanhar votos da centro-esquerda. O que faz com que a prefeita seja uma espécie de coringa da eleição.

O 2º turno da esquerda, com ou sem a esquerda

Em quem a esquerda e a centro-esquerda votarão no segundo turno? Apesar do campo ser um saco de gatos e os partidos contarem com correntes que discordam até sobre o lado certo de quebrar o ovo de manhã, a resposta é relativamente simples: no candidato em quem Bolsonaro não colocar a mão ou naquele com a qual a esquerda consiga estabelecer um diálogo.

Há um relativo consenso que, mantido o atual cenário, Bruno Covas estará no segundo turno. A meta da esquerda é empurrar um adversário para disputar contra ele. Nesse caso, esse campo despejaria os votos nessa pessoa. E, ato reflexo, uma parcela da direita se engajaria com Covas.

Mas, lembrando da suposta declaração de Garrincha frente ao planejamento teórico do técnico Feola, antes do jogo com a União Soviética, na Copa de 1958, falta combinar com os russos. Pois há, por enquanto, pré-candidatos mais bem posicionados à direita, como o deputado federal Celso Russomano (Republicanos). Nesse caso, a tendência da esquerda é votar com Covas contra quem eles chamam de "candidato da Universal".

"Covas tem sangue AB. Será receptor universal de votos", brinca um tucano.

As igrejas serão fiéis da balança -- sem trocadilho

Além de fragmentada e curta, a eleição realizada durante a pandemia também impedirá reuniões de pessoas. E, nesse contexto, as igrejas e suas redes capilarizadas terão um papel importante, afirmam dois políticos evangélicos de partidos de centro.

Lideranças no PT e no PSOL listaram à coluna apoios de religiosos católicos e protestantes às suas candidaturas. Mas, por enquanto, o alcance disso é numericamente limitado.

"Não há chances de candidatos de esquerda avançarem junto às grandes igrejas neopentecostais e pentecostais, apenas em denominações evangélicas minoritárias ou grupos ligados à Teologia da Libertação [ideologia católica progressista]. "Ao mesmo tempo, não vejo adesão ou rejeição ao Bruno Covas", afirmam um deles.

Ao contrário do que profere um preconceito comum, evangélicos não são um grupo monoliticamente uniforme. O que se conhece como Assembleia de Deus, por exemplo, é uma federação de igrejas com lideranças distintas. E um candidato apoiado pela Universal, por exemplo, dificilmente terá apoio de outras denominações que discordam das lideranças dessa igreja.

"Há, contudo, uma parcela cooptada pela extrema direita, que está com Bolsonaro. E será barulhenta nas igrejas e nas redes sociais. Contra a esquerda, inclusive", afirma um dos políticos ouvidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto