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Leonardo Sakamoto

Apoio de Bolsonaro a atos contra o Congresso autoriza Salles a xingar Maia

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) - Adriano Machado/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) Imagem: Adriano Machado/Reuters

Colunista do UOL

29/10/2020 10h53

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Num governo em que o presidente da República fomentou e participou de atos antidemocráticos que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, o ministro do Meio Ambiente sente-se à vontade de xingar o presidente da Câmara dos Deputados de "Nhonho" no Twitter sem se preocupar com as consequências.

Ou seja, foi Jair Bolsonaro (sem partido) quem estabeleceu o (baixo) nível em que o debate político seria travado em seu governo e o que passaria a ser aceitável na República em termos de ataques institucionais.

Ricardo Salles chamou Rodrigo Maia (DEM-RJ) pelo nome do personagem do programa humorístico Chaves, repetindo um assédio sistematicamente realizado contra o deputado pelas hordas do bolsonarismo-raiz.

Diante da repercussão negativa, afirmou que não foi ele quem postou, mas outra pessoa. Tipo um "foi sem querer, querendo". Ahã, Claudia, senta lá.

Da mesma forma, quando criticado por discursar para uma multidão que pedia golpe militar e gritava "AI-5" e "Fora, Maia!", em frente ao quartel-general do Exército, no dia 19 de abril, o presidente atacou os críticos, dizendo que foi mal interpretado e que o povo precisava ser ouvido. Como se aquele naco de celerados representasse o interesse de toda população brasileira.

Não são só as provocações que parecem vindas da quinta série do ensino fundamental. A covardia em assumir os seus próprios atos, chamando-os pelo nome correto e arcando com as consequências, é típico de quem, apesar da idade, não amadureceu.

Salles suspendeu sua conta no Twitter. Ficará sem postar alguns dias até a poeira baixar. Daí, voltará a tuitar como se nada tivesse acontecido.

Afinal de contas, quantas vezes seu chefe não atacou o presidente da Câmara dos Deputados, acusando-o de conspirar para querer derrubá-lo, o que é algo gravíssimo? Não apenas ficou por isso mesmo como chegou a ganhar afagos do próprio Maia, que - aliás - está sentado sobre uma pilha imensa de pedidos de impeachment.

Pode-se dizer que o presidente da Câmara faz política com a cabeça e não com o fígado, pensando em uma possível autorização para buscar a reeleição. O problema é que o outro lado, que precisar ser institucionalmente contido, opera sempre na lógica do conflito. O que nos faz perder tempo com aquilo que é desnecessário.

Enquanto isso, o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica e a Amazônia queimam. Garimpeiros invadem territórios indígenas e transmitem coronavírus. Ibama e ICMBio seguem impávidos rumo ao sucateamento. Grileiros de terra nunca foram tão felizes.

O saldo disso tudo é que o ministro do Meio Ambiente ganhou mais pontos com o bolsonarismo-raiz e com a ala mais ideológica do governo federal e vai se afirmando como porta-voz dos valores violentos e da falta de ética do seu chefe. Sem ser incomodado.