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Leonardo Sakamoto

Vacina não chega já. Até lá, desprezo pela "gripezinha" matará muita gente

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

02/12/2020 18h53

A vacina é importante para nos ajudar a tomar de volta a vida que a pandemia nos roubou neste último ano. Mas não será uma solução imediata, como alguns dão a entender. Ela começa a ser distribuída em março do ano que vem e nem todos os brasileiros a receberão em 2021, segundo o próprio governo federal divulgou nesta quarta (2). Pelo menos, nem todos os que a procurem - uma vez que tem um naco que acredita que a vacina pertence ao demônio ou que faz parte de uma conspiração globalista.

Ou seja, vai morrer muita gente ainda, como indica o aumento na lotação de UTIs covid em hospitais privados e públicos pelo país.

Mortes que, em grande parte, poderiam ser evitadas se a administração Jair Bolsonaro não tivesse adotado o terraplanismo sanitário como política de Estado e a incompetência como modelo de gestão. Incompetência que se traduz na incapacidade de distribuir testes para a detecção da doença antes de perderem a validade e no fornecimento de justificativas que ofendem nossa inteligência.

Parte da população cansou e relaxou? Claro. Mas a quarentena foi estendida para muito além do necessário porque o poder público federal jogou contra ela o tempo todo, o que acabou estendendo a pandemia.

Cobrado a agir após as mortes começarem a ocorrer, o governo prometeu, em abril, distribuir mais de 46 milhões de testes para covid. Com isso, seria possível identificar os infectados e mantê-los em isolamento, rastreando também quem com eles teve contato. Com testes em profusão, reduziríamos o espalhamento da doença. Não entregou nem metade disso.

E o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que muitos diziam ser especialista em logística, manteve em um armazém do governo, em Guarulhos (SP), 6,86 milhões de testes RT-PCR que vencem entre este mês e o próximo, como mostrou reportagem do jornal O Estado de S.Paulo. Outros 213 mil expiram até fevereiro e 71 mil vão para a glória em março

A Anvisa ainda está analisando o caso, mas a solução defendida pelo governo, ao que tudo indica, será renovar a validade por decreto. Bem ao estilo Bolsonaro, da narrativa se impondo sobre os fatos.

Se você criar um malabarismo verbal para justificar o consumo de um bifão que já cruzou o rubicão da data de validade, o problema no dia seguinte é apenas seu. Mas, no caso de testes vencidos, o impacto da tática Rolando Lero recai sobre toda a sociedade. Com um falso negativo, uma pessoa pode continuar trabalhando, infectando ao seu redor.

Uma trapalhada logística desse tamanho em um governo exemplar no combate ao coronavírus seria vista como desprezo. Mas como ocorre no governo Bolsonaro, acaba se amontoando a tantas outras bizarrices, que até dilui sua gravidade relativa. Deve, contudo, ser encarado com o que é de fato: mais um capítulo da necropolítica presidencial.

Bolsonaro mentiu ao dizer que quarentenas não funcionaram para retardar a propagação do vírus; ao afirmar que o isolamento social não teve impacto positivo; ao chamar a pandemia de "gripezinha" e "resfriadinho"; ao defender que a cloroquina deve ser usada no tratamento da doença mesmo com provas de que ela não funciona); ao cravar que a crise econômica causada pelo vírus mata tanto quanto ele próprio; ao dizer que o Supremo Tribunal Federal afirmou que são prefeitos e governadores os únicos responsáveis pela política contra a covid quando a corte não disse isso, tirando seu corpo fora.

Seu mau exemplo não ficou apenas em declarações bizarras e orientações fajutas. O presidente causou danos à saúde pública através de suas ações. Como as aglomerações que promovia em dias de manifestações a favor de autogolpe militar e do fechamento do Congresso Nacional e do STF. Inspirados nele, muitos brasileiros relativizaram a importância de se cuidar e, ao fazer isso, passaram adiante o vírus a quem não tinha nada a ver com a história.

E por conta de tudo isso, estendemos desnecessariamente a duração das quarentenas, o que apronfundou a crise de emprego.

E ele fez escola. Nas eleições municipais, muitos foram os políticos, da direita à esquerda, que seguiram seu mau exemplo, aglomerando-se. Outros aprenderam sua tática de acusar o outro de "fake news" sempre que acusados de fazer bobagem. O governador João Doria, que se gabava de ser um contraponto racional a Bolsonaro, por exemplo, só endureceu a quarentena no dia seguinte à eleição de seus aliados, mesmo com a alta de internações.

Como já disse aqui, a morte do indivíduo ainda dói (e muito), mas a morte coletiva virou rotina e se esvaziou. Não que milhões de pessoas não tenham medo de morrer ou de perder uma pessoa querida por causa da doença. Mas brasileiros ainda perdem a vida todos os dias por um motivo estúpido e, em grande parte, evitável. Temos 174,5 mil mortes, número que segue crescendo. E nada acontece.

Preferimos acreditar em uma ficção de que a vacina está chegando e ela nos redimirá. Ela virá, mas não a tempo de salvar a todos. Irresponsáveis somos, do presidente terraplanista, passando por um Congresso Nacional que vê as ações do governo com cara de paisagem, até nós, que estamos banalizando o que nunca poderia ser banalizado.

Com isso, endossamos o que sempre diz Bolsonaro: "a gente lamenta a morte, mas é o destino de todo mundo".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL