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Leonardo Sakamoto

Quantas mortes terá custado a demora de SP em endurecer a quarentena?

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

30/11/2020 12h56

O governador João Doria (PSDB) anunciou o endurecimento da quarentena no município de São Paulo nesta segunda (30) - um dia após a recondução de seu correligionário Bruno Covas à prefeitura da capital. A taxa de ocupação de UTIs por covid já havia levado especialistas a recomendarem a ele a tomada de medidas restritivas imediatamente - o que o governador não fez. Decidiu esperar com base nos "dados" que tinha em mãos.

Como alertei no domingo, hoje seria o dia de saber em quais locais os gestores sujeitaram decisões de combate à pandemia às suas necessidades políticas. Ou seja, anúncios como esse já eram previsíveis. O que não faz com que sejam menos chocantes.

Para um governo que se gabou de ter sido um contraponto racional ao terraplanismo sanitário do presidente da República, e que realmente tomou medidas corretas enquanto o presidente se aliava ao coronavírus, é um tanto quanto constrangedor a percepção de que segurou ações impopulares para não afetar a votação de aliados.

Natural que uma parte da população esteja cansada do isolamento social e desrespeite regras de distanciamento. Da mesma forma, era esperado (infelizmente) que candidatos "flexibilizassem" as restrições por conta própria e se aglomerassem com seus eleitores.

Mas isso não dá a governadores e prefeitos autorização para agirem de forma irresponsável, colocando suas necessidades acima da qualidade de vida de milhões de pessoas. Mesmo diante do esperado impacto causado pelo endurecimento de uma quarentena - como a limitação do horário de bares e restaurantes, em meio aos dias quentes de um segundo turno.

O posicionamento do governador foi seguido pelo prefeito, que afirmou que não havia necessidade de retroceder na quarentena em sabatina ao UOL e à Folha de S.Paulo, na última quinta (26). Pregava a estabilidade da doença, apesar de a redução no número de leitos de UTIs vagos em hospitais privados e públicos apontarem outra coisa.

Ignorando o conselho de médicos e pesquisadores, Doria preferiu esperar esta segunda (30), quando já estava marcada uma revisão do Plano São Paulo, que classifica as regiões do Estado em fases quanto a níveis de abertura. Agora, passou a capital e outras regiões da fase verde para a amarela.

O governador e o prefeito vão dizer que esse questionamento é leviano, mas se não houvesse eleição neste momento, São Paulo teria retrocedido antes na flexibilização da quarentena?

Os mortos decorrentes desses dias que perdemos certamente não poderão responder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL