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Leonardo Sakamoto

Com a cloroquina, Bolsonaro implementa maior show de ilusionismo do mundo

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

13/01/2021 09h44

Enquanto dezenas de países correm para vacinar sua população a fim de frear as mortes por covid-19 e retomar a economia com segurança, o governo Jair Bolsonaro (sem partido) se dedica a entupir os brasileiros de "feijões mágicos": cloroquina e ivermectina. Implementa, com isso, o maior show de ilusionismo do mundo. E, mesmo sendo manjados, muita gente ainda cai nos truques.

Em um dos lances mais bizarros desde que começou a pandemia, terraplanistas biológicos do Ministério da Saúde pressionaram a Prefeitura de Manaus a distribuir hidroxicloroquina e ivermectina, remédios usados contra malária, lúpus e infestação por vermes, como tratamento precoce para a covid, como informou o Painel do jornal Folha de S.Paulo.

Como funciona o ilusionismo. Na esmagadora maioria dos casos, nosso sistema imunológico é capaz de dar conta da doença, produzindo anticorpos e eliminando o coronavírus de forma eficaz. Ao apontar um remédio ineficaz como solução para casos leves, o presidente está, na verdade, tentando roubar o mérito por algo que o organismo já faria por conta própria.

E isso cola em uma parte desavisada da população. Afinal, o que tem mais a cara de ser responsável por vencer uma guerra contra uma doença mortal: estruturas microscópicas que cada um tem dentro de si, os glóbulos brancos, ou um produto milagroso distribuído com pompa e circunstância pelo sistema de saúde que é alvo de elogios semanais do presidente em suas lives?

E não apenas entre os cidadãos comuns. Um médico de São Sebastião, cidade no litoral paulista, me relatou a empolgação com a qual colegas defendem o "kit covid", distribuído pela Prefeitura, com esses medicamentos. Questionados sobre a falta de comprovação científica, dão de ombros, como se sua fé estivesse sendo colocada à prova. Ciência? Ninguém sabe, ninguém viu.

Sem rodeios, o médico sanitarista e fundador da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Gonçalo Vecina, foi além e afirmou no Jornal da Cultura, do último dia 6: "na minha área tem muito médico burro, que ainda dá cloroquina".

E nos casos em que a doença evolui para a morte? Daí é a estratégia discursiva adotada pelo governo é a de que nada poderia ter sido feito.

"Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", como disse o presidente em 28 de abril. Ou "Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", como afirmou em 2 de junho. E ainda o "Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas", como sentenciou em 10 de novembro. E, claro, o "Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. Essa é a vida", rosnou em 27 de março.

O problema é que poderia sim. E a prioridade em feijões mágicos ajudou a tirar o foco no que realmente importa.

Está faltando oxigênio para manter pacientes vivos em Manaus. Faltam remédios para intubar pacientes ou para amenizar seus sintomas em um rosário de municípios por todo o país. Faltam testes RT-PCR para identificar, rastrear e isolar os casos positivos, o que poderia limitar a infecção, enquanto milhões deles venciam em um depósito do governo federal em Guarulhos (SP). Faltam leitos de UTIs. Faltam respiradores. Faltam profissionais de saúde. E, é claro, falta vacina.

O que nos lembra que as estratégias presidenciais são atreladas umas às outra. Enquanto se dedicou com afinco a encontrar formas de livrar o pescoço de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos -RJ), de uma denúncia por desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Jair não trabalhou para garantir a imunização da população contra a covid-19.

Para reduzir as cobranças, resolveu compensar a falta de oferta reduzindo a demanda.

Tornou-se um incansável guerreiro contra as vacinas, atacando sua credibilidade. "A vacina, se é emergencial, ela não tem segurança ainda. Ninguém pode obrigar ninguém a tomar algo se não tem certeza das consequências", disse no dia 8. Dessa forma, também anima o naco de seguidores fanáticos de extrema direita que acha que a vacina desenvolvida na China tem nanochips 5G para que cavaleiros templários e bilionários pedófilos controlem a sua mente.

Com base em nada, disse que menos metade da população brasileira pretende tomar vacina. "Alguém sabe quantos por cento da população vai tomar vacina? Pelo que eu sei, menos da metade da população, pelo que eu sei. E esta pesquisa que eu faço, faço na praia, faço na rua, faço em tudo quanto é lugar", disse. O Datafolha, mais confiável que o DataMessias, de novembro, aponta que 73% querem se vacinar.

Mas a estratégia tem dado certo em certo ponto: já são 22% os que não querem o imunizante, frente a 9% em agosto. E 50% aqueles que não acreditam em vacinas desenvolvidas por laboratórios chineses - por mais que medicamentos que consumimos aqui diariamente tenham matéria-prima de lá.

Toda essa experiência de adoecimento da democracia por conta de um corpo estranho na Presidência da República nos lembra que apesar de não existir remédio eficaz para tratar a covid-19, temos uma boa vacina para evitar que outras tragédias continuem acontecendo. Ela é pública e gratuita, chegando ao mesmo tempo a ricos e pobres.

Mas ela só estará disponível em outubro de 2022.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL