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Leonardo Sakamoto

Intimar Felipe Neto por chamar Bolsonaro de 'genocida' é sinal de desespero

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/03/2021 02h59

É sintomático do momento de estresse vivido pelo clã Bolsonaro a intimação recebida por Felipe Neto para que preste esclarecimentos após ele ter chamado (ao lado de uma boa parte da internet brasileira) o presidente de "genocida". É uma absurda tentativa de intimidação, dele e de críticos em geral, mas também uma cortina de fumaça e um sinal de desespero.

O presidente, como é notório, tem sido um dos maiores aliados do coronavírus. Ostentando um comportamento irresponsável, levou o Brasil a 280 mil mortos, com potencial para outros 280 mil.

Após o vereador Carlos Bolsonaro ter apresentado uma notícia-crime por calúnia, baseada em uma lei que é um entulho da ditadura militar, a Polícia Civil do Rio de Janeiro bateu na porta do empresário e youtuber com 41,5 milhões de seguidores para entregar o documento nesta segunda (15).

Ironicamente o Tribunal Penal Internacional está examinando uma denúncia apresentada contra Bolsonaro por incitar genocídio contra povos indígenas. Dependendo do resultado, a Polícia Civil vai precisar juntar umas milhas para ir até Haia, na Holanda, a fim de entregar nova intimação.

Quando Bolsonaro fica acuado, ele joga uma cortina de fumaça que serve para duas coisas. Primeiro, desviar a atenção do que realmente importa.

Pelo documento postado nas redes por Felipe Neto, o procedimento foi iniciado na quarta (10), data do discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC - discurso que pautou a mídia e irritou Bolsonaro.

Na mesma quarta, o Brasil ultrapassou duas mil mortes por covid registradas em 24 horas pela primeira vez - para ser mais específico, 2.349. A marca foi divulgada internacionalmente e colocada na conta de Bolsonaro. Enquanto as mortes disparam, a população está longe de ser imunizada em massa e pobres dormem com fome pela falta do auxílio emergencial.

Já o delegado do caso não poderia escolher data melhor para entregar a intimação.

Nesta segunda, o Palácio do Planalto anunciou a substituição do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o que é mais uma prova da falência da gestão da pandemia pelo governo. A troca visa a reduzir as críticas sobre Bolsonaro, verdadeiro formulador da antipolítica da pasta.

Além disso, nesta segunda, o UOL publicou uma investigação mostrando que a quebra de sigilos bancário e fiscal de pessoas e empresas ligadas ao então deputado estadual e, hoje, senador Flávio Bolsonaro revela indícios de que o esquema de desvio de recursos públicos também ocorria nos gabinetes do pai, Jair, quando este era deputado federal, e do irmão, o vereador Carlos Bolsonaro.

Outra razão para as cortinas de fumaça é manter excitada a legião de seguidores e fãs, mantendo-a motivada e unida na defesa de seu mito. Um naco de 12% a 16% da população é composto de guardiões da radicalidade e, por vezes, da irracionalidade do governo. Quando fragilizado, Bolsonaro precisa mais do que nunca desse rebanho nas ruas e nas redes, atacando críticos e incensando-o. E costuma mobilizá-lo com esse tipo de coisa.

No dia 4 de março, Bolsonaro chamou de "idiota" quem pede que ele compre vacina. "Só se for na casa da tua mãe! Não tem para vender no mundo!", afirmou em Uberlândia (MG). Algumas horas depois, em São Simão (GO), sapateou em cima daqueles que choram sobre seus mortos. "Vocês [produtores rurais] não ficaram em casa, não se acovardaram. Nós temos que enfrentar nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?"

Como efeito colateral, a mídia focou sua cobertura nas declarações, mas as redes bolsonaristas também foram à loucura. Sobrou menos espaço no debate público para a compra da mansão de quase R$ 6 milhões por parte de seu filho, o senador Flávio.

Procedimentos como esse, contra uma figura conhecida como Felipe Neto, tendem a não levar a uma condenação final, como já vimos em outras ações. Quem o utiliza sabe disso, mas vê neles ferramentas para ameaçar e intimidar adversários e provocar medo em quem pensa em criticá-lo e, ao mesmo tempo, estimular sua tropa. Este procedimento, em especial, foi iniciado em lugar errado, diga-se de passagem, porque crimes contra a segurança nacional são de competência federal.

Mesmo assim, ferramentas autoritárias como a Lei de Segurança Nacional vêm sendo adotadas à fartura pelo ocupante do Palácio do Planalto. Segundo levantamento da revista Crusoé, sob Bolsonaro, a Polícia Federal abriu 82 inquéritos com base nessa legislação.

E o comportamento da família do presidente vai se replicando por similaridade. Pipocam pelo país casos de pessoas comuns que foram assediadas pela polícia por terem opinião. Muitos se livram de coisa pior porque sua história ganha os holofotes da mídia.

Protestar contra intimidações como essa contra Felipe Neto, um dos mais importantes comunicadores do país, é, portanto, impedir que os saudosos dos métodos da ditadura tomem gosto pela coisa e fiquem à vontade. A começar pela própria família do presidente.

Não bastasse ser chamado de "genocida", Bolsonaro parece querer também ser tratado como "censor" e "ditador".

Em tempo: E há quem esteja comparando de forma bizarra uma crítica legítima ao presidente com o caso de um deputado federal que atacou a democracia e incitou a violência física contra um ministro do STF. No fundo do poço, há sempre um alçapão.