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Leonardo Sakamoto

Tite chamado de 'comunista' é campanha padrão de linchamento bolsonarista

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/06/2021 16h27

Tite, técnico de nossa seleção de futebol, vem sendo chamado de "comunista" por bolsonaristas nas redes sociais simplesmente porque externou a insatisfação de jogadores e comissão técnica com a realização da Copa América no Brasil, no momento em que a covid-19 volta a escalar. O fascinante é que parte dos fãs do presidente não faz ideia do que seja comunismo.

Antes de mais nada, deve ser muito difícil para quem abre mão de sua capacidade de reflexão imaginar que atletas tenham ficado insatisfeitos individualmente com a situação, percebido através do diálogo que a insatisfação era coletiva e buscado externá-la no grupo e à sociedade. Preferem acreditar que foi Tite quem fez a cabeça dos marmanjos, o que significa, na prática, chama-los de idiotas.

Isto não é um texto sobre os prós e contra do comunismo, mas uma tentativa de entender como uma groselha como "Tite comunista" se torna trending topic, para além da ação de robôs e redes de ódio.

Graças à sabedoria que circula nas redes sociais, descobrimos, desde as eleições de 2018, que a cantora Madonna, a revista Economist, as Nações Unidas, o jornal New York Times, a Rede Globo, o Facebook, o Twitter, o cantor Roger Waters, o filósofo e economista conservador Francis Fukuyama, a deputada de extrema-direita Marine Le Pen, banqueiros multibilionários e a multinacional Pfizer são comunistas. Além de Tite, claro.

Bolsonaristas chegaram a chamar a Embaixada da Alemanha de comunista por ela ter postado um vídeo explicando que o nazismo é um movimento de extrema-direita após o presidente afirmar que ele era de esquerda ao visitar o Memorial do Holocausto. Pior, nossos conterrâneos disseram aos alemães que eles não entendiam muito bem o que era o nazismo. Como na vez que tentarem explicar a Roger Waters, fundador do Pink Floyd, a intenção por trás de Another Brick in the Wall, sua própria música.

Como já escrevi aqui, é claro que muitos que "xingam" pessoas ou instituições de comunistas não compreendem o que isso, de fato, significa - o que nos leva a lamentar que falhamos na educação do país. Caso as pessoas soubessem História e estivessem atentas ao que se passa à sua volta, buscando saber as manifestações do comunismo no Brasil e no redor do mundo, poderiam criticá-lo de forma mais embasada. E, acredite, há muitas críticas a serem feitas.

O macarthismo tupiniquim inaugurado com o processo de impeachment de Dilma Rousseff fez com que pessoas fossem perseguidas por suas ideologias e até caçadas nas ruas só porque estavam vestidas de vermelho. Bolsonaro foi além e tem fomentado a ficção de que vivemos sob o risco de uma ditadura comunista. Visto como delírio por quem é bem informado, a ameaça de um fantasma é uma excelente forma de manter o seu público engajado.

Há um esvaziamento do sentido original da palavra. Não raro, muitos que chamam alguém de comunista, acham que estão usando um palavrão genérico.

Despida de seu significado, o termo também se tornou um elemento de identificação de grupo. Ou seja, uma postagem chamando a Pfizer ou o técnico da seleção de comunistas imediatamente passa uma mensagem compreendida pelos demais membros do grupo, gerando conexão. De que aquilo é ruim, de que não deve ser consumido, de que deve ser combatido.

E isso não é monopólio da loucura que cresce nas redes sociais ou aplicativos de mensagens. Tive a oportunidade de ouvir no Congresso Nacional que o combate ao trabalho escravo, ao trabalho infantil e ao tráfico de pessoas são coisa de "comunista". Ou seja, o combate ao trabalho escravo, que, em última instância, significa garantir que o contrato de compra e venda de força de trabalho, base do capitalismo, seja feito corretamente, é expressão do comunismo. Tudo para maquiar interesses de quem lucra com isso.

O próprio Gabinete do Ódio, que serve a Bolsonaro, não está interessado no posicionamento ideológico de Adenor Leonardo Bachi, conhecido por nós como Tite. Mas ele foi escolhido como o bode expiatório e apanha publicamente porque jogadores e comissão técnica resolveram demonstrar seu descontentamento frente a uma decisão da Conmebol, da CBF e do presidente da República.

Jair precisa garantir que essa insatisfação não se transforme em boicote à competição, pois seriam ídolos do futebol, que costumam não se envolver em política, deixando claro que ele mandou mal de fazer a Festa do Corona Sul-Americano ao trazer dez seleções e suas equipes e jornalistas para um dos covidários do mundo.

A palavra "comunismo" retirada de seu sentido original, de propriedade comum dos meios de produção e da ideologia por ela sustentada, se tornou no Brasil um simples comando para o linchamento digital, independentemente de quem esteja do outro lado. O objetivo é tirar a credibilidade e destruir, muitas vezes para servir de exemplo.

Isso, claro, não cola em boa parte da população, que percebe o quão bizarro é esse processo. Mas é o suficiente para vacinar com realidade paralela fãs e seguidores do presidente para que não percam a fé no capitão. Bem, pelo menos esse tipo de vacina ele nunca deixou faltar no país.

Como já disse aqui, hoje a palavra é "comunismo". Amanhã, quem sabe, será "democracia".