PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Witzel fala de intimidação no caso Marielle e promete revelação à CPI

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/06/2021 13h27

"Pode ficar tranquilo que ele não vai me intimidar, porque não sou porteiro."

Em bate-boca na CPI da Covid, nesta quarta (16), o ex-governador Wilson Witzel provocou o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), fazendo uma alusão ao episódio do porteiro do condomínio Vivendas da Barra, que havia citado o nome do presidente Jair Bolsonaro em investigação da execução de Marielle Franco e Anderson Gomes e, depois, voltou atrás.

Posteriormente questionado pelo presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), por mais informações sobre o caso, Witzel afirmou que poderia falar, mas apenas em sessão sigilosa da comissão, pois "os fatos são graves".

Nos dias 7 e 9 de outubro de 2020, o porteiro do condomínio localizado na Barra da Tijuca, no Rio, havia dito à Polícia Civil que um dos suspeitos de cometer o crime, o ex-policial militar Élcio de Queiroz, interfonou para a casa de Jair Bolsonaro, tendo sua entrada autorizada por alguém que ele identificou como "seu Jair". Era 14 de março de 2018, dia das execuções.

E contou que, depois que teve a entrada autorizada, Élcio foi à casa do ex-policial e miliciano Ronnie Lessa - acusado de ser o autor dos disparos que matou Marielle e Anderson. Ambos estão presos.

No dia da morte de ambos, Bolsonaro não estava no Rio de Janeiro, mas em Brasília, em sessão da Câmara dos Deputados.

Mais de um mês depois, em 19 de novembro, o porteiro mudou o depoimento. Afirmou que havia anotado errado no registro do condomínio a casa para onde Élcio de Queiroz estava indo, marcando a de número 58 (do presidente) no lugar da 66 (de Ronnie). Disse à Polícia Federal que para compensar o erro escrito inventou a história da ligação para o "seu Jair".

Por que a citação de Witzel sobre a intimidação? Só ele vai poder responder. Mas, no dia 30 de outubro de 2019, o então ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República que investigassem o porteiro após o depoimento que ele deu à Polícia Civil.

Na época, a decisão levou a críticas da oposição no Congresso Nacional e entre juristas. A avaliação foi de que Moro estava usando seu cargo para o benefício do presidente da República no que foi considerado uma intimidação da testemunha de um caso sob investigação.

Na época, o deputado federal Marcelo Freixo (sem partido) afirmou que a atuação de Moro no episódio mostrou que ele "assumia de vez o papel de advogado particular do clã presidencial". E que ele não se constrangia em "usar o aparato policial do Estado brasileiro para intimidar um porteiro, homem humilde que mora numa área controlada por milícia, transformando uma testemunha em réu, para proteger a família Bolsonaro".

Ironicamente, Sergio Moro deixou o cargo no dia 24 de abril de 2020 alegando interferência política de Bolsonaro sobre a Polícia Federal.

Em seu discurso de demissão, denunciou pressão do presidente da República para manipular a PF em nome de seus interesses no Rio de Janeiro e indicou a tentativa de obstrução de Bolsonaro em investigações.

Wilson Witzel, que sofreu impeachment, em abril, por crime de responsabilidade por corrupção na pandemia, afirmou, no depoimento desta quarta, que Bolsonaro passou a persegui-lo quando ele mandou investigar o caso Marielle.

"Quando foram presos os dois executores da Marielle, o meu calvário e a perseguição contra mim foi inexorável. Ver um presidente da República em uma live, lá em Dubai, acordar na madrugada, pra me atacar, pra dizer que eu estava manipulando a polícia do meu estado. Ou seja, quantos crimes de responsabilidade esse homem vai ter que cometer até que alguém pare ele?"

A educadora e jornalista Anielle Franco, irmã da vereadora, indignada com a citação do nome de Marielle, postou no Twitter: "Na hora de apoiar a quebra da placa não colocou a culpa na minha irmã... Subiu, fez charminho, riu, e achou lindo! Agora quer usar o nome dela de escudo? Assuma seus atos. Eu heim! Nos poupe de passar ainda mais raiva nesse país!"

Então candidato a governador, Witzel participou de um comício, em outubro de 2018, em que foi quebrada uma placa com o nome de Marielle, com a presença do hoje deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que usa tornozeleira eletrônica após ser preso por ameaças a ministros do Supremo Tribunal Federal, e o hoje deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), alvo de ação por usar funcionário fantasma.