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Leonardo Sakamoto

Para atingir Doria, Bolsonaro sabota CoronaVac e põe nossas vidas em risco

Jair Bolsonaro com olhos estalados - Ansa
Jair Bolsonaro com olhos estalados Imagem: Ansa
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/06/2021 10h38

Jair Bolsonaro sabotou mais uma vez a saúde pública, colocando a vida de brasileiros em risco, na noite desta terça (15), ao mentir sobre a vacinação. Disse que muita gente que toma a CoronaVac "não desenvolve anticorpo nenhum" e que "essa vacina não tem comprovação científica ainda". Testes científicos comprovaram que ela desenvolve sim anticorpos e protege a população.

Desta vez, as declarações não foram dadas a um rebanho num cercadinho, mas a uma afiliada da Record de Rondônia.

A maioria dos brasileiros quer vacina no braço, mas vem crescendo a recusa do produto desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac e finalizado no Instituto Butantan. Com a declaração, ele ajuda a criar dúvidas desnecessárias, levando pessoas a peregrinar entre postos de saúde para encontrar a vacina desejada, colocando suas vidas e as de outros em risco.

Tem sido hercúleo o esforço de médicos e cientistas para explicar que qualquer um dos imunizantes que estão sendo aplicados em território nacional tem qualidade e é capaz de nos levar à verdadeira imunidade coletiva - quando uma parcela superior a 75% da população está vacinada e o vírus reduz consideravelmente a sua circulação. E não aquela falsa, via contaminação geral, como quer o presidente.

Bolsonaro ataca a CoronaVac no mesmo dia em que o governador de São Paulo João Doria confirmou o que todos já sabiam: que ele quer disputar a presidência da República, pelo PSDB, em 2022. E isso não é mera coincidência.

As investigações da CPI da Covid deixaram claro que, se dependesse do presidente, os brasileiros morreriam afogados em cloroquina sem vacina no braço. Ele, que ignorou ofertas de dezenas de milhões de doses de imunizantes no ano passado, que poderiam ter salvo dezenas de milhares de brasileiros, só se mexeu porque Doria estava prestes a aplicar a CoronaVac nos paulistas.

O presidente vem atacando esse imunizante desde o ano passado por conta da disputa política com o governador. Chegou até a humilhar o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, publicamente ao desautorizar a compra de 46 milhões de doses. Mas teve que botar o rabo entre as pernas e fechar contratos de aquisição da "vacina chinesa", neste ano, quando viu que seria atropelado por uma população desesperada por ser imunizada.

Continuou, contudo, batendo publicamente na China, produtor de matéria-prima tanto da CoronaVac quanto da AstraZeneca - produzida pela Bio-Manguinhos/Fiocruz, o que atrapalhou a remessa de insumos, como mostram documentos da CPI.

Excita, assim, a parcela de 14% da população feita de seus seguidores mais fiéis. Nela residem os terraplanistas que acreditam que o gigante asiático implante chips nas vacinas para controlar as pessoas.

E contando que os brasileiros não têm memória, defendeu, na mesma entrevista à TV, nesta terça, que a vacina da Pfizer "tem mais credibilidade" que a CoronaVac.

Isso contrasta com o que afirmou em 17 de dezembro do ano passado sobre o imunizante: "Se você virar um jacaré, é problema de você. Se você virar Super-Homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou algum homem começar a falar fino, eles [Pfizer] não têm nada a ver isso".

O governo Bolsonaro recebeu 81 mensagens dessa farmacêutica oferecendo sua vacina. Se tivesse aceitado a oferta de agosto, os brasileiros teriam começado a ser imunizados ainda em dezembro. Não quis. Contava com a cloroquina e com as previsões do chefe do Gabinete das Sombras, Osmar Terra, de que a pandemia iria passar. Não passou. E estamos às portas das 500 mil mortes agora.

Depois de tudo isso, na última segunda (14), ele ainda pediu à Pfizer para antecipar as doses. E nem ficou corado diante de tamanha cara de pau.

Bolsonaro continua governando para esses 14%, porque são eles que vão às ruas, a pé, de moto ou de carro, para mostrar que ele tem apoio. E são eles que vão ajudar a inundar as redes e aplicativos de mensagens com conteúdo falso na eleição do ano que vem. E são eles que vão começar tumultos caso seu líder perca nas urnas.

Em nome de sua reeleição, topa tudo. Inclusive continuar sabotando a vacinação. Afinal, o que é a saúde dos brasileiros frente à possibilidade de perpetuação do bolsonarismo?