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Leonardo Sakamoto

Datafolha: Contra Lula, bolsonarismo pode rifar o 'mito' pelo 2º turno?

15.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília - Adriano Machado/Reuters
15.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília Imagem: Adriano Machado/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

17/09/2021 16h32

O núcleo duro do bolsonarismo-raiz é composto por ruralistas, militares, policiais, religiosos e militantes de extrema direita. Essa turma, somada a apoiadores conjunturais, ainda garante um tíquete para o segundo turno das eleições para Jair. Mas como parte desse eleitorado vai reagir se, durante a campanha eleitoral, perceber que o capitão não ganhará de Lula num segundo turno? Abandonará o "mito" em nome de outro nome melhor posicionado em pesquisas de segundo turno ou irá com ele até a derrota ou um golpe?

Pesquisas eleitorais, com exceção às feitas na boca da urna, são fotografias de um momento e não previsões do que deve acontecer nas eleições. Hoje, Lula venceria Bolsonaro por 56% a 31%, de acordo com o Datafolha, divulgado nesta sexta (17).

E tão ou mais importante do que a aprovação de um presidente é a sua tendência de subida ou de queda. O Datafolha mostrou que Bolsonaro conta com apenas 22% de ótimo e bom e 53% de ruim e péssimo. Desde dezembro de 2020, sua popularidade copia a renda dos brasileiros, caindo de forma consistente.

Temos razões econômicas de sobra para isso. Enquanto o auxílio emergencial foi reduzido para um piso de R$ 150 mensais, o que não compra 25% da cesta básica em São Paulo ou no Rio, segundo o Dieese, o preço do gás de cozinha, da gasolina, da energia elétrica e da comida dispararam. A população desempregada demora a diminuir, contabilizando surpreendentes 14,4 milhões. Isso sem contar a possibilidade real de apagões até dezembro devido à incompetência do governo na gestão hídrica.

Estimativas de crescimento do PIB para 2022 vão sendo recalculadas - para baixo. Algumas já apontam para menos de 1%. Junto com a inflação, que não parece que vá ceder, teremos um quadro de estagnação, com aumento de preços. O presidente, que na campanha de 2018 afirmou sonhar em fazer o Brasil voltar a ser como era há 40 anos, pode, enfim, conseguir.

O governo apostava que o avanço da vacinação melhoraria esse cenário para ele. Contudo, além do fato do serviço de imunização ser realizado por estados e municípios, Bolsonaro faz declarações atacando as vacinas, o que ajuda a afastar um ganho que ele poderia ter. Parte da população sabe que estamos sendo imunizados apesar dele.

Bolsonarismo-raiz representa 11%; acreditam em tudo o que ele diz, 15%

O bolsonarismo-raiz vai se mantendo significativo, apesar de algumas variações. Mauro Paulino e Alessandro Janoni, diretores do Datafolha, calculam esse contingente em 11% da população. A quantidade dos brasileiros que acredita em tudo o que Bolsonaro diz continua em 15%.

A fidelidade desse grupo não se estabeleceu da noite para o dia, mas foi construída durante os anos em que Jair Messias pregou seu evangelho, ignorado pela elite política que acreditava na perenidade da polarização PT-PSDB.

Ele prometeu que, se presidente, defenderia liberdade absoluta para seus aliados, permitindo o desmatamento ilegal, a impunidade para quem cometesse infrações de trânsito, o porte de fuzis nas ruas, a transformação de Deus em um bom negócio que não precisaria recolher impostos. E tem cumprido isso. O que chamamos de inferno, esse grupo chama de paraíso.

Ter esse pacote de seguidores fiéis ajuda a manter, inclusive, o pacote de apoiadores conjunturais pela percepção de que o presidente não está só.

Mas o Brasil não vai crescer sem disponibilidade de energia elétrica, não vai estimular o consumo interno com a classe trabalhadora sem dinheiro para gastar e com a inflação corroendo seu poder de compra. Faltam insumos para a produção, sobra fome na camada mais pobre.

Diante disso, o que acontecerá se ele continuar perdendo popularidade?

Chegaria o momento em que uma parte do seu público, vendo que o voto em Jair facilitaria a corrida do ex-presidente Lula rumo ao Planalto, largaria mão dele em nome de um nome com mais possibilidade de vencer o petista no segundo turno? Há espaço para um pragmatismo antilulista entre os bolsonaristas?

Bolsonaro fora do segundo turno em 2022?

Bolsonaro não gosta nem de ouvir falar desse roteiro. Afinal, ele tem base social não desprezível e engajada, ao contrário da maioria dos nomes que se apresentam como a "terceira via". Base que se beneficiou de uma liberdade irrestrita para fazer e acontecer concedida nos últimos anos.

Nesse sentido, parece um erro tático da direita não-bolsonarista insistir na palavra de ordem "nem Bolsonaro, nem Lula" e não "Bolsonaro vai eleger o Lula". Não acredito que o atual presidente será o principal eleitor do ex-presidente. O petista vai explorar o que era o Brasil em seus governos, mostrando-se mais experiente que Jair. Mas é inegável que, em uma situação de piora dos indicadores econômicos, Bolsonaro se tornará um candidato-pichorra ou candidato-pinhata, dependendo de onde você more.

O bolsonarismo existia muito antes de Bolsonaro e continuará existindo após ele. Da mesma forma que, nas eleições de 2014, esse grupo votou no PSDB, ele pode ir para outro lugar em 2022.

Para a sorte do presidente o antilulismo e o antipetismo não são os únicos elementos que seu núcleo duro leva em consideração na hora de optar pelo voto. Nenhum dos pré-candidatos com nomes à mesa promete agir fora do campo democrático para alcançar objetivos de extrema direita, como Bolsonaro se propõe, por exemplo.

Esse é um diferencial imbatível, que tem sido explorado sistematicamente por ele. As micaretas golpistas de 7 de setembro, por mais que tenham frustrado muita gente com a arregada tática do presidente, são uma sinalização importante para esse público. Ninguém toparia fazer o que o "mito" faz. A impressão é que o bolsonarismo, como pacote ideológico e político, é mais forte do que o antilulismo entre os apoiadores do presidente - porque o pacote é antipetista, mas não só.

Ainda uma escolha difícil?

Em meio a isso, há outra questão: o que farão os eleitores de outros candidatos de "terceira via" que não forem para o segundo turno? Votarão em Lula, mesmo sem concordar com as propostas dele em nome da democracia, ou depositarão o voto em Bolsonaro, dando vazão ao antilulismo ou antipetismo?

Entre os mais ricos (que embarcarem na campanha do capitão, em 2018, logo que Geraldo Alckimin mostrou que não decolaria), a reprovação de Bolsonaro caiu de 58% para 46%, de julho para setembro. Ao todo, 36% deles o consideram bom ou ótimo.

Faz sentido. Até porque parte dos mais ricos ainda acha que pode domá-lo e o veem como piada - vide o jantar em homenagem a Michel Temer na casa de Naji Nahas. E preferem ele à democracia, por uma série de razões: da possibilidade remota de "reformas" de Paulo Guedes ao preconceito de classe.

O apresentador Luciano Huck, presidenciável até assumir o posto que era de Fausto Silva aos domingos na TV Globo, questionado pela revista Veja em quem votaria entre Lula e Bolsonaro caso a terceira via não emplaque, afirmou: "não quero fazer essa escolha agora". Ironicamente, o título da entrevista vem de outra declaração que diz que uma "ameaça à democracia tem de nos unir acima de ideologias".

Há outras formas de responder a essa questão feita a ele. Ele não precisaria se comprometer, mas poderia deixar claro a opção por vetar um candidato que deseja destruir a República para reergue-la à sua imagem e semelhança.

Mas, afinal de contas, para muita gente ainda é uma "escolha difícil".

Em tempo: Vale lembrar que Bolsonaro deve tentar um golpe de estado caso perceba que vá perder, seja no primeiro ou no segundo turno. E isso sempre enlouquece os seus seguidores mais fanáticos, claro.