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Leonardo Sakamoto

Prevent apaga covid de atestado de óbito e oculta ineficácia da cloroquina

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

22/09/2021 16h43

Ao ser acusado de alterar atestados de óbito e prontuários de pacientes para proteger a imagem do inútil "kit covid", o plano de saúde Prevent Senior demonstra estar alinhado a uma das principais técnicas do bolsonarismo: quando a realidade não lhe é favorável, torture os fatos até que gritem uma versão melhor.

Reportagem de Ana Clara Costa, da revista Piauí, mostrou que apesar da covid-19 não aparecer no atestado de óbito de um dos principais nomes do negacionismo brasileiro, o médico Anthony Wong, o seu prontuário aponta que ele teve a doença e foi tratado para ela. Falecido no dia 15 de janeiro deste ano, usou cloroquina antes de dar entrar em um hospital da Prevent Senior. Wong combatia o isolamento social.

Outra reportagem, de Julia Affonso, do jornal O Estado de S.Paulo, revelou que a CPI da Covid recebeu dossiê elaborado por 15 médicos afirmando que a declaração de óbito de Regina Hang, mãe do empresário Luciano Hang, foi fraudada omitindo que o real motivo do óbito era a covid-19.

O empresário havia divulgado vídeo dizendo que, até ela ser diagnosticada, não havia recebido o chamado tratamento preventivo e que, se tivesse feito isso, a vida dela poderia ter sido salva. Contudo, o dossiê aponta que o prontuário de Regina mostrado na CPI registra que ela usou medicamentos do "kit covid", como hidroxicloroquina e ivermectina, antes e depois de ser internada. Hang é defensor de remédios sem eficácia para covid.

Em depoimento à CPI, nesta quarta (22), o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, negou que tenha omitido óbitos para direcionar resultados de um experimento que conduziu sobre a eficácia do kit covid. A empresa é acusada de usar seres humanos como cobaias, dando remédios sem seu conhecimento. Os dados do experimento foram usados por Bolsonaro para incentivar o uso desses produtos.

Batista Júnior reconheceu que houve a orientação para que médicos modificassem o CID (classificação internacional de doenças) de pacientes duas ou três semanas após terem dado entrada em hospitais da rede por covid-19. A justificativa é de que, naquele momento, já não causariam mais riscos e poderiam ser transferidos. Isso, porém, ajuda a excluir a doença do registro de eventuais óbitos.

Médicos que estão na linha de frente do combate à pandemia no Hospital das Clínicas da USP e nos hospitais Sírio-Libanês e no Albert Einstein afirmaram à coluna que o correto é a covid-19 constar como causa primária ou secundária no atestado de óbito, uma vez que complicações que levaram à morte são decorrência da doença.

Lembram que o vírus sai do organismo após algumas semanas, o que não significa que as consequências da infecção não continuem.

Erros no registro podem acontecer a partir da análise do médico em cada caso. Contudo, no caso da Prevent Senior, os senadores afirmam que houve uma tentativa de manipulação através de uma orientação geral dada pela administração do plano de saúde a todos os profissionais de saúde.

Tortura da realidade pode ser vista com frequência no governo federal

A prática de manipular dados até que gritem o que os gestores querem ouvir é comum no governo. Por exemplo, diante de taxas recordes de desemprego (hoje são 14,4 milhões), Jair Bolsonaro não ataca as causas, apresentando um projeto sólido para gerar postos de trabalho de qualidade, mas o IBGE, que informa o tamanho do problema. É como se um médico, diante de uma febre resistente, fraudasse o termômetro ao invés de ministrar o tratamento correto.

Neste caso, há uma dose maior de cinismo, pois o médico deixou que o quadro do paciente chegasse a um estado crítico com sua omissão e negligência.

"Estamos criando empregos formais, e bastante, mês a mês, mas tem aumentado o desemprego por causa dessa metodologia do IBGE, que atendia ao governo da época. Esse tipo de metodologia, no meu entender é o tipo errado. Vou sofrer críticas do IBGE, mas eles podem mudar a metodologia", afirmou, em entrevista à CNN, em abril.

Tal como acusou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de mentir sobre o desmatamento na Amazônia porque as imagens de satélite não corroboravam as mentiras que ele conta. Todo governo mente, mas faz parte da cartilha de governos autoritários manipular sistematicamente informações a fim de adaptar a realidade à sua narrativa.

Assim como é certo que o senador Luiz Carlos Heinze vá defender a cloroquina a cada nova sessão da CPI, também é que Bolsonaro não irá alterar nunca seu modus operandi. Provou isso em seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, quando usou o púlpito da ONU para fazer uma live de luxo, transmitindo uma realidade paralela a seus seguidores no Brasil. Uma realidade em que a cloroquina funciona contra a covid.

A mentira para a reconstrução da realidade é um dos princípios do bolsonarismo. O problema é que certas mentiras, como a promoção de remédios sem eficácia para a pandemia e cheios de efeitos colaterais, matam.