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Leonardo Sakamoto

Sabotagem de Bolsonaro do combate à covid-19 alimentou desemprego e fome

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/09/2021 17h38

Nos 1000 dias de Bolsonaro, o que não falta é passador de pano para o aumento na pobreza, no desemprego, na fome e na inflação decorrente de sua má gestão. Há um visível esforço para que os pobres e a classe média esqueçam o que Jair, candidato à reeleição, fez e deixem de colocar a situação econômica na sua conta.

Diante da profusão de balanços negativos, grupos de WhatsApp e redes sociais bolsonaristas resgataram, nos últimos dias, declarações anteriores de Jair para mostrar que ele foi contra o isolamento social, adotado por Estados e municípios como medida de combate à covid-19, e assim "provar" que ele queria impedir fome e desemprego. Na verdade, isso apenas demonstra que ele dá pouco valor à vida. Até porque muitas das ações e inações do presidente diante da pandemia ajudaram a piorar a fome e o desemprego.

A tática discursiva um tanto quanto infantil foi usada, inclusive, no discurso de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, quando culpou as quarentenas adotadas por governadores e prefeitos pela inflação.

Ou seja, para os bolsonaristas a vida seria melhor caso tivessem seguido o "plano" de Jair: garantir que a população se contaminasse rapidamente (o que aumentaria ainda mais o número de mortos, hoje em quase 600 mil), usando o chamado "tratamento precoce" para incentivar as pessoas a voltarem às ruas (apesar de a ciência já ter demonstrado que cloroquina e ivermectina funcionam para malária e vermes, não para covid). Se milhares a mais morressem, paciência, "todo mundo morre um dia" - como repete o presidente.

Ignora que os brasileiros não estavam indo às compras, às aulas, ao trabalho, ao lazer simplesmente porque governadores e prefeitos disseram não, mas por medo de uma pandemia que chegou a matar mais de 4 mil em um único dia.

Caso ele não tivesse sabotado sistematicamente as medidas de isolamento social e, ao mesmo tempo, combatido o uso de máscaras e fechado contratos de compra de vacinas ainda no ano passado, a pandemia seria mais curta e a economia teria voltado a um (quase) normal muitos antes, com menos mortos e menos desemprego.

Mas não foi isso o que aconteceu e a pandemia prolongada artificialmente por Bolsonaro levou o desemprego a patamares nunca vistos por aqui, chegando a 14,8 milhões. Ressalte-se que, antes dela, também não havia uma política nacional para a geração de postos de trabalho decentes, pelo menos nada que não incluísse a subtração de proteções à saúde e segurança dos trabalhadores.

Quando a fome apertou (os tais 19,1 milhões de famintos, no final do ano passado, calculados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), Bolsonaro cancelou o auxílio emergencial em 31 de dezembro e só retomou em abril, com valores mixurucas de R$ 150, R$ 250 e R$ 375 - muito menos que os R$ 600 ou R$ 1200 aprovados pelo Congresso no primeiro semestre de 2020.

O piso do auxílio, hoje, não compra 25% da cesta básica em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Florianópolis, segundo o Dieese. Com isso, a fome apertou ainda mais. O baixo valor tampouco ajudou de forma significativa no aquecimento da economia.

Parte da alta do dólar também pode ser creditada a Bolsonaro, que, de um lado, trouxe instabilidade à política, criando um ambiente com menos segurança para investidores, e, de outro, seguiu errante na gestão da economia, atendendo a interesses de aliados no Congresso, preocupando-se apenas em evitar o impeachment e pavimentar a reeleição. Dólar mais alto impacta no preço do gás de cozinha e dos combustíveis e, por conseguinte, na inflação dos alimentos.

Isso sem contar que o Brasil não poupou os reservatórios das hidrelétricas para um momento crítico, tal como um motorista que enche o tanque apenas pela metade e encontra um trecho longo de estrada sem postos. E, na reserva, torce para conseguir chegar ao fim da estrada sem uma pane seca. O resultado é que vivemos com risco de apagões e com o preço da energia elétrica pela hora da morte.

Em suas micaretas golpistas de 7 de setembro, o presidente já tinha nas mãos as bombas do desemprego, da fome, da inflação, da pobreza e das crises hídrica e energética. Preferiu eleger o Supremo Tribunal Federal como inimigo. Ignorando que governa para 213 milhões de pessoas, produziu uma peça para excitar os seus seguidores.

Agora, seus seguidores vêm a público para defendê-lo e responsabilizar terceiros. De quem é a culpa para eles? Governadores e prefeitos, imprensa e artistas, bilionários comunistas, cavaleiros templários, chineses e seus chips 5G, Leonardo DiCaprio e Greta Thunberg. Todo mundo, menos quem foi eleito para a tarefa, o presidente Jair Bolsonaro.

Em evento, nesta segunda (27), após dizer que desejava o preço da gasolina e do dólar mais baixos, ele afirmou: "Tem um ditado que diz 'nada não está tão ruim que não possa piorar". Jair pode ficar tranquilo que, nestes 1000 dias, aprendemos que isso é a mais pura verdade.