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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro agravou a fome e agora vende o Auxílio Brasil como solução

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/10/2021 11h29

Após ser um dos responsáveis pela fome que faz com que brasileiros lutem por ossos e disputem sobras no caminhão de lixo, Jair Bolsonaro lança o Auxílio Brasil (pagando R$ 300 e R$ 400 no lugar do Bolsa Família) e quer a renovação do auxílio emergencial para manter suas chances na eleição de 2022. Ou seja, ajudou a piorar o problema e, agora, quer lucrar oferecendo soluções incompletas.

Ele insiste em afirmar que a fome foi gerada pelas quarentenas baixadas para evitar mortes. Mentira. Caso ele não tivesse sabotado sistematicamente as medidas de isolamento social e, ao mesmo tempo, combatido o uso de máscaras e comprado vacinas da Pfizer e da CoronaVac ainda no ano passado, a pandemia seria mais curta e a economia teria voltado a um (quase) normal antes, com menos fome, menos pobreza, menos desemprego, menos mortos.

Pelo contrário, quando a fome apertou (os tais 19,1 milhões de famintos, no final do ano passado, calculados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), ele cancelou o auxílio emergencial em 31 de dezembro e só retomou em abril, com valores mixurucas de R$ 150, R$ 250 e R$ 375. Jogou lenha no fogo - gasolina não, porque já está custando mais do que R$ 7 o litro.

Mesmo o piso do auxílio, hoje, não compra 25% da cesta básica em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Florianópolis, segundo o Dieese. O povo quer feijões? Que compre fuzis.

Diante da fome que apertava, Jair Bolsonaro disse, no dia 1º de junho, que "quem quer mais [auxílio emergencial], é só ir no banco e fazer empréstimo". O que os trabalhadores informais pobres que perderam o emprego por conta da pandemia dariam como garantia de um empréstimo? Os próprios rins?

Isso sem contar que parte da culpa da inflação é dele e de suas micaretas golpistas, que elevaram a insegurança e ajudaram na subida do dólar. Dólar mais alto impacta no preço do gás de cozinha e dos combustíveis e, por conseguinte, na inflação dos alimentos. Sem contar sua incompetência na gestão hídrica, que nos levou à atual situação nos reservatórios e a um preço escorchante da eletricidade.

Diante de seu terraplanismo biológico, parte da classe média o abandonou. Durante um tempo, isso foi mais do que compensado pela parcela dos que se beneficiaram direta ou indiretamente do auxílio emergencial de R$ 600/R$ 1.200. Mas a popularidade de Bolsonaro começou a desabar quando o benefício foi suspenso em dezembro. E sua retomada em abril, com valores pífios, não foi suficiente para melhorar significativamente sua aprovação.

Sem o auxílio emergencial, contudo, o governo Bolsonaro rolaria ladeira abaixo hoje. E é isso o que ele quer evitar com a prorrogação e com o anúncio imediato da mudança no Bolsa Família.

Há bons projetos no Congresso Nacional que aproveitam o auxílio emergencial para criar um programa de renda básica decente. Que, sim, custaria caro, mas reduziria a desigualdade social no Brasil e, com ela, coisas como a mortalidade infantil e a evasão escolar. No momento de pós-pandemia, isso também evitaria uma convulsão social devido à fragilidade da economia.

Em qualquer democracia que faz jus a esse nome, recursos para um programa como esse viriam de uma Reforma Tributária que aumentasse a progressividade na cobrança de impostos, tirando dos super-ricos, através de taxação de grandes heranças e altíssimas rendas.

Mas essa discussão está a passos lentos. Além da dificuldade do que isso representa em um Congresso Nacional cuja elite econômica está pornograficamente super-representada, há o fato de que isso também demandaria revisão da emenda constitucional do teto de gastos. Coisa que não tem simpatia do ministro da Economia, aquele que vem levando passa-moleque do presidente da República e está na corda bamba após descobrirmos que levou 9,55 milhões de dólares para tirar férias em um paraíso fiscal.

O governo vai dar um gato e contornar o teto "excepcionalmente" para fazer caber o Auxílio Brasil temporariamente em 2022. O suficiente para uma eleição.

Como aqui já escrevi, Bolsonaro sabe que seu futuro político depende mais de um programa de transferência de renda parrudo do que do respeito às balizas fiscais e da preocupação com o endividamento.

Para o mercado e os liberais que o apoiam, o presidente tenta se mostrar como alguém que prega austeridade fiscal. Para o povão e sua base social, quer aparecer como aquele que garante dinheiro para os pobres. As duas contas não fecham. Mas o mercado não tem voto, enquanto os que recebem até dois salários mínimos são a maioria do país. No final, as parcelas bolsonaristas do mercado financeiro vão entender essa concessão, lembrando que, para eles, vale mais a sobrevivência de Bolsonaro do que a volta do PT.

Ao longo do ano passado, alertei aqui que o presidente aprendeu com a experiência do auxílio emergencial e iria usá-la para se cacifar às eleições no momento certo. O macabro (para usar um termo adotado pelo senador Flávio Bolsonaro ao se referir às histórias dos mortos pela covid na CPI) é que Jair deixou milhões passando fome antes que isso acontecesse.