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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro não demonstra empatia pela Bahia porque tem pouco voto no estado

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

30/12/2021 11h11

Se a tragédia que devasta o Sul da Bahia tivesse ocorrido no interior de Goiás ou do Rio Grande do Sul, locais onde o presidente conta com índices de aprovação melhores que a média nacional, ele teria tirado férias sem antes demonstrar empatia a desabrigados e familiares dos mortos? Provavelmente, não.

A questão não é a preferência pela população deste ou daquele estado, mas a percepção de que o interior da Bahia deve entregar a maioria de seus votos ao seu principal adversário, o ex-presidente Lula. Nesse cálculo mórbido, a priorização a essa região é tempo perdido. Melhor fazer festinha com os banhistas em Santa Catarina.

Claro que o fato de a Bahia ser governada pelo petista Rui Costa também contribui para que Jair submeta decisões que precisam ser tomadas pelo governo federal para diminuir o sofrimento das vítimas à estratégia eleitoral.

Não tenho dúvidas de que Jair Bolsonaro teria tirado férias mesmo assim - afinal, ele ama demais a si mesmo para colocar qualquer outra prioridade à frente. Mas, se fossem outros locais atingidos, ele teria se deslocado novamente para a região, montado um gabinete de crise, oferecido quantidades decentes de recursos - e não os caraminguás que liberou até agora.

Até porque, neste caso, estaria reforçando a sua base eleitoral ao tentar convencer as pessoas que ele realmente se importa com a vida humana - por mais que 620 mil cadáveres durante a pandemia, dos quais mais de 400 mil evitáveis se ele não tivesse sabotado o combate à covid-19, sejam a prova de que isso não é verdade.

Parte de seus apoiadores e seguidores gostam de ver o presidente cavalgando seu jet ski na praia em meio a catástrofes e tragédias. Celebram o mito por não ficar de "mimimi" nem de "frescura" e tocar a vida em frente. Afinal, como todo mundo morre um dia, luto e pesar é para os frouxos.

Nesse contexto, se 620 mil óbitos significam "apenas" 0,29% dos brasileiros, o que são duas ou três dezenas de mortes no Sul da Bahia? É um cálculo mórbido, mas que funciona para o seu eleitorado. E o que Jair precisa é de seu eleitorado fiel, pelo menos no primeiro turno das eleições. Depois é pregar o velho antipetismo.

Resta ao povo do Sul da Bahia contar com a potencial solidariedade da maioria do país, que ainda não está indiferente diante da vida humana. Ou tentar cavar uma pesquisa de opinião que mostre que Bolsonaro conta com 70% das intenções de voto por lá, o que pode animar o presidente a querer mostrar serviço.