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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Governo nos ensina a comprar busão com sobrepreço e cobrar propina em ouro

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/04/2022 11h37

Há muitas críticas sobre a inação do governo Jair Bolsonaro na área de Educação. Todas injustas, pois não é fácil ensinar à população como fazer uma licitação de ônibus com sobrepreço multimilionário, autorizar pastores evangélicos a cobrarem propina em forma de ouro e pressionar para que escolas sejam plataformas da guerra ideológica do presidente. Demanda método, dedicação e disciplina.

O Tribunal de Contas da União (TCU) viu indícios de sobrepreço na licitação de quatro mil ônibus rurais escolares pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, o que poderia fazer com que os veículos custassem até R$ 732 milhões a mais. Suspendeu o certame nesta terça (5). A denúncia trazida pelo jornal O Estado de S.Paulo mostra que pessoas ligadas a Ciro Nogueira (PP) e Valdemar da Costa Neto (PL), líderes do centrão e sócios de Bolsonaro, deram aval para a licitação bichada.

O procurador Lucas Rocha Furtado, que pediu a suspensão do pregão, afirmou que ele pode se converter também em um "prejuízo à democracia, a depender da destinação que esses recursos venham a ter, como, por exemplo, a composição do chamado 'caixa 2 de campanha'".

Essa aula pública do governo sobre como ganhar um cascalho fácil é um segundo módulo de outra, ministrada durante a pandemia pelo Ministério da Saúde. Naquele momento, militares, policiais, religiosos, representantes de políticos, servidores públicos se juntaram para ensinar como combinar esquemas para tirar uma grana da compra de doses de vacina contra covid-19. Apontados pela CPI, os casos aguardam sua vez de virar pizza.

E ela vem logo depois de um curso rápido dado pelo então ministro da Educação, Milton Ribeiro. Ele ensinou que o presidente da República pode pedir que amigos de pastores evangélicos próximos a ele devem ter prioridade na liberação de verbas públicas que deveriam ser destinadas sob critérios técnicos.

Após denúncias dos jornais O Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo virem a público, um rosário de prefeitos denunciou a cobrança de propina para ter acesso aos fundos. Em barras de ouro, em compra de bíblias, em espécie mesmo.

Além de se tornar caixa eletrônico de religiosos e políticos bolsonaristas, que o usam para conseguir um cascalho, o ministério também mostrou muita coisa nova aos brasileiros nos últimos três anos.

Milton Ribeiro, por exemplo, ensinou que crianças com deficiência "atrapalham" o aprendizado das demais, dizendo que "é impossível a convivência" com algumas delas. Abraham Weintraub ensinou racismo contra chineses, preconceito contra indígenas, perseguição a professores e estudantes, desprezo pela língua portuguesa. Carlos Alberto Decotelli ensinou a maquiar o currículo, criando títulos que ele não tem. Ricardo Vélez Rodríguez ensinou que livros devem ser censurados para afirmar que não houve golpe em 1964, muito menos ditadura militar.

Para ensinar tanta coisa, o ministério esqueceu seus problemas administrativos e gerenciais, o sucateamento e a falta de apoio para a formação dos profissionais, os salários baixos e atrasados, os planos de carreira risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda decente, de internet, de segurança para se trabalhar, os projetos impostos de cima para baixo que fecham escolas e desfazem comunidades escolares, o atraso em crianças pobres causado pela pandemia que será perpetuado pela falta de planos de recuperação decentes por parte do poder público.

Mas a aula magna foi dada pelo presidente Jair Bolsonaro.

Não ao transformar a pasta em um instrumento de sua guerra cultural, pressionando para que o Enem abandonasse questões técnicas em nome de bobagens ideológicas, mas por ensinar que, quando chamamos algo por outro nome durante muito tempo, as pessoas começam a acreditar nisso.

Ou seja, o presidente nos ensina que uma mentira contada várias vezes passa a ser absorvida como verdade. Não pela maioria da sociedade, que acha um insulto à sua inteligência o uso dessa tática, mas principalmente por seus seguidores já predispostos a isso. Pesquisa Datafolha afirma que 17% da população acredita em tudo o que diz Jair. Tudo.

Por exemplo, de tanto dizer que não há corrupção em seu governo, muita gente acredita. "Três anos e três meses sem qualquer denúncia de corrupção em nossos ministérios", disse ele, em Quixadá, em comício eleitoral no mês passado. Você pode até não gostar dele, mas é impossível não admitir que nas ciências da mentira, Jair é mestre.