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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por Bolsonaro, deputados levam só um minuto para atropelar a Constituição

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/07/2022 14h00

Quando historiadores do futuro analisarem este momento bizarro em que vivemos, não vão acreditar que a Câmara dos Deputados fez uma sessão com apenas um minuto de duração para discutir mudanças na Constituição Federal. Ou seja, se alguém foi fazer pipoca no micro-ondas (que leva de dois a quatro minutos) para acompanhar o debate, perdeu.

Com isso, deputados abraçam o ridículo em nome dos interesses eleitorais de Jair Bolsonaro.

Lincoln Portela (PL-MG), vice-presidente da casa, deu início à sessão às 6h30 e, um minuto depois, afirmou: "Nada mais havendo a tratar, vou encerrar os trabalhos", ignorando os protestos de alguns colegas. Nem Monty Phython faria melhor.

Como as propostas de emenda constitucional precisam ser analisadas por, pelo menos, dez sessões, a base do governo tenta acelerar o processo criando discussões de um minuto. Para que a pressa? Alimentar os brasileiros que estão passando fome? Não, para dar tempo de o efeito eleitoral contaminar positivamente as intenções de voto de Jair.

Mas, pelamordedeus, é uma reunião oficial para discutir o texto constitucional, não um encontro para decidir o churrasco de domingo.

Não à toa o governo se empenhou tanto para tirar Marcelo Ramos (PSD-AM) da vice-presidência da Câmara. O deputado é crítico ao atropelamento do processo legislativo que está em curso para atender as necessidades do governo e do centrão. Se estivesse presidindo a sessão no plenário, esse ridículo poderia não ter entrado para os anais da casa.

Desde o ano passado, a oposição, a sociedade civil e mesmo parte da base governista pedem benefícios sociais maiores para aplacar a fome dos mais pobres (hoje, são 33 milhões). Dava tempo de ter feito isso de forma decente, debatendo com responsabilidade, procurando fontes de financiamento, estruturando o projeto de forma a atender os estratos mais necessitados da população, com ações de monitoramento da aplicação dos recursos e de seus impactos.

O que o governo Bolsonaro fez? Fez a egípicia, pois uma ação correta no ano passado evitaria o desastre social de hoje, mas causaria um impacto eleitoral reduzido. Agora, que a água bate no pescoço com Lula à frente e a fome ronca na barriga de milhões, sua base no parlamento sai destrambelhada, atropelando regras fiscais e eleitorais e usando da criatividade no regulamento do Congresso para mostrar como Jair é bom.

Os deputados bolsonaristas aceitam isso em nome do "mito". Mas o centrão mira a sua própria sobrevivência. Parte dele quer garantir que sua galinha dos ovos de ouro mantenha-se onde está pelos próximos quatro anos, botando recursos para as suas necessidades de emendas paroquiais. Parte quer apoio para os seus projetos de regressão civilizatória no meio ambiente, no trabalho, sobre povos indígenas.

A PEC do Desespero prevê a subida do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, um voucher-caminhoneiro de R$ 1000, aumento no vale-gás, entre outras ações. Tudo só ate o final do ano. Depois? O pobre já votou, que se exploda.

Mas a sessão ridícula faz sentido se analisada no contexto de outros ridículos, como uma Câmara que ignora mais de 100 pedidos de impeachment. Tudo para manter o controle sobre um presidente fraco, mas com força para assinar o cheque.