PUBLICIDADE
Topo

Se for "cancelar" Morrissey, poupe The Smiths

Maurício Ricardo

Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube "Fala, M.R.". Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Colunista do UOL

27/11/2019 19h42

Já deixou de seguir uma celebridade por causa de suas convicções políticas ou de um comentário... inapropriado? O Brasil, onde isso já há algum tempo é moda, vem adotando uma gíria específica para denominar o ato: "Cancelar".

Sim. "Cancelar" não simplesmente dar um unfollow. Agora você "cancela" o artista da mesma forma que cancela uma assinatura de jornal ou de TV a cabo: você tira ele da sua vida.

Com a radicalização política, o "cancelamento" é fenômeno global. Um dos casos recentes mais ruidosos é o do ex-vocalista dos Smiths, Morrissey. Ele, que um dia já disse em canção que gostaria de ver Margareth Tatcher (a icônica primeira-ministra conservadora inglesa) "na guilhotina", caiu de amores por um pequeno partido de extrema-direita britânico chamado "For Britain".

Dois lados

A história dessa guinada não é tão simples: a líder da agremiação, Annie Marie Waters, é lésbica, militante da causa LGBTQ+ e dos direitos dos animais.

"Espera aí!" - você pode estar me perguntando - "Então por que o partido dela é considerado de extrema direita?".

Aí é que está. O mundo já foi mais simples.

Embora defenda radicalmente essas duas pautas associadas à Esquerda, o "For Britain" quer uma Inglaterra para os ingleses. Defende leis severas para impedir o avanço do Islã, é contra imigrantes estrangeiros em geral e é um ferrenho defensor não só do Brexit, mas do fim da União Europeia. Enfim: é um partido ultranacionalista e xenófobo.

Provocação

Morrissey, que apareceu num programa popular de TV dos EUA com um broche do partido e expulsou de um de seus shows fãs que ousaram questionar suas escolhas, vem sofrendo boicotes de rádios e de algumas das poucas lojas de disco que ainda restam no planeta, inclusive a mais antiga delas: Spillers Records, que fica no País de Gales.

A pergunta que este e outros casos, envolvendo artistas brasileiros e estrangeiros, provoca é: está certo "cancelar" a obra por causa das escolhas políticas do autor?

No Brasil, muita gente de Esquerda "cancelou" Roger Moreira, criador do Ultraje a Rigor, por sua ferrenha defesa do governo Bolsonaro nas redes sociais.

Por outro lado, nem todo o talento poético de Chico Buarque foi suficiente para livrá-lo do "cancelamento" por parte da Direita que não perdoa seu apoio a Lula, Cuba e Venezuela.

Tempos modernos

É um fenômeno dos nossos tempos, impensável quando os artistas só se manifestavam em ambiente controlado, em entrevistas para grandes órgãos de imprensa, ou releases escritos por assessores.

Impensável também num mundo onde diferenças políticas eram toleráveis e no geral, quando o assunto era política, fazia-se um pequeno esforço para buscar áreas de convergência, não de conflito.

No caso de Morrissey, o boicote comete uma enorme injustiça: não é possível separar a poesia dele do incrível trabalho de guitarra feito por seu ex-colega Johnny Marr, guitarrista dos Smiths, uma das bandas mais influentes dos anos 80.

Johnny Marr

No espaço de menos de uma década em que os Smiths lançaram discos, Marr foi um sopro de elegância e criatividade no rock inglês do pós-punk, explorando harmonias e timbres que inspiraram muitos outros grupos ao redor do planeta. Inclusive a nossa Legião Urbana.

Marr continua em atividade e é assumidamente "de esquerda". Vem lançando músicas novas e tocando suas versões para clássicos dos Smiths. Pode até se beneficiar do "cancelamento" de Morrissey, atraindo para seus shows os fãs que tiveram o coração partido pelo ex-colega de banda.

Mas é muito triste pensar que, em algum lugar do mundo, lindas canções dos Smiths, como "How soon is now" ou "There is a light that never goes out" podem estar sendo "canceladas" em rádios ou nos serviços de streaming porque o "falastrão atacou de novo" ("Bigmouth strikes again" é título de um dos grandes hits dos Smiths).

"Cancelar" é uma forma de protesto válida. Mas se você é desses que "cria ranço" fácil, melhor não pesquisar muito o passado de nenhum de seus ídolos.

Não vou tirar seu prazer de ouvir boa música dando exemplos, mas muitos astros só não foram "cancelados" porque tiveram a sorte de brilhar e construir seu legado antes do advento das redes sociais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.