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Operação Pancadão é um trocadilho absurdo

Jovem em Paraisópolis segura bomba de efeito moral da PM - Adriano Vizoni/Folhapress
Jovem em Paraisópolis segura bomba de efeito moral da PM Imagem: Adriano Vizoni/Folhapress
Maurício Ricardo

Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube ?Fala, M.R.?. Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Colunista do UOL

01/12/2019 18h55

Não há justificativa.

Mesmo quem defende a "linha dura" na Segurança Pública, política explicitada em suas campanhas tanto pelo presidente que o País elegeu em 2018 quanto pelo governador escolhido pelo povo de São Paulo, precisa entender: simplesmente não há justificativa.

A ação da Polícia Militar que resultou em nove mortes em Paraisópolis, bairro favelado na Zona Sul da capital paulista, não é só um desastre operacional: é a prova de que dois universos muito diferentes convivem dentro deste território continental que chamamos de Brasil.

A distorção começa já no nome da ação: "Operação Pancadão". Um trocadilho de péssimo gosto. Prenúncio da violência que viria.

A preocupação primordial da PM deveria ser sempre a garantia da segurança do público, não importa se o evento acontece numa favela ou em um bairro nobre. Se é clandestino ou fiscalizado. Se é funk periférico ou show de estádio com DJ internacional.

A PM, obviamente, tem como explicar sua presença: evitar a perturbação da ordem pública, o vandalismo, o consumo e venda de drogas ilícitas.

Lazer possível

Mas para os milhares de jovens, inclusive adolescentes, que estavam participando do "fluxo de funk" na madrugada de ontem, aquele era apenas o lazer possível num sábado à noite.

Eles mereciam a proteção, não o ataque da polícia.

Não é por escolha pessoal que os jovens de periferia frequentam bailes sem fiscalização, sem segurança, sem banheiros químicos ou sem saídas de emergência sinalizadas. Estes são luxos disponíveis para quem pode pagar ingresso e deslocamento até os eventos em ambiente controlado.

Se esses mesmos jovens reagem com agressividade à simples presença policial, há que se considerar que, para eles, Polícia não representa segurança: representa sempre a repressão, a opressão, o fim da festa.

E é no mínimo compreensível que estes jovens, marginalizados por sua própria condição social, não queiram se submeter a toque de recolher e confinamento nas suas noites de lazer por medo do pancadão da PM.