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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

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Após contestação, Globo muda título de série sobre "heroína" na 2ª Guerra

Sophie Charlotte como Aracy de Carvalho na série "Passaporte para a Liberdade" - Jayme Monjardim / Globo
Sophie Charlotte como Aracy de Carvalho na série "Passaporte para a Liberdade" Imagem: Jayme Monjardim / Globo
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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

24/09/2021 16h32

Em produção desde 2019, a série "O Anjo de Hamburgo" teve o seu título alterado agora em setembro. Segundo a Globo, a produção feita em parceria com a Sony americana passou a ser intitulada "Passaporte para a Liberdade". É uma mudança importante, e ocorre menos de um mês depois de dois historiadores contestarem aspectos da história.

Em estágio de finalização, mas ainda sem previsão de estreia, a série descreve a passagem de Aracy de Carvalho (1908-2011) como funcionária do consulado do Brasil em Hamburgo na década de 1930. Segundo alguns testemunhos, ela teria ajudado na concessão de vistos de saída da Alemanha a judeus perseguidos pelo nazismo.

Desde a apresentação do projeto, a Globo trata Aracy como uma "heroína", e atribui a ela o "salvamento de centenas de judeus na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial".

Durante a sua temporada em Hamburgo, Aracy (vivida na ficção por Sophie Charlotte) começou um relacionamento com o escritor Guimarães Rosa (interpretado por Rodrigo Lombardi), então vice-cônsul, com quem posteriormente se casou.

Como mostrei no UOL em 1º de setembro, há dúvidas sérias sobre esta imagem de Aracy como "heroína" e "salvadora" de judeus.

O período crítico de emissão de vistos a judeus alemães ameaçados pelo regime nazista ocorreu, sobretudo, entre 1938 e 39, antes da eclosão da Segunda Guerra. Um levantamento minucioso mostra que o consulado de Hamburgo, neste período, apenas cumpriu as determinações do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Os historiadores Fábio Koifman e Rui Afonso concluíram, após examinarem os vistos, "que nenhum visto irregular ou qualquer ilegalidade foi praticada pelo serviço consular da representação brasileira em Hamburgo no período em que a ajuda humanitária a perseguidos judeus é atribuída".

O estudo mostra, assim, que não houve nenhum gesto de heroísmo por parte dos funcionários do consulado. João Guimarães Rosa, vice-cônsul, e Joaquim Antônio de Souza Ribeiro, cônsul, apenas cumpriram o que a legislação brasileira indicava, assim como outros consulados brasileiros na Europa no período. Já Aracy, que não era diplomata, mas funcionária contratada, não tinha poder de emitir vistos nem condições de adulterá-los.

O novo título da série atenua, um pouco, a intenção de apresentar Aracy como uma heroína, "o anjo de Hamburgo". Agora, o foco passa a ser no significado que os vistos tiveram - permitiram que os judeus deixassem a Alemanha. O novo título, porém, incorre em outro erro, já que o consulado do Brasil em Hamburgo não emitia passaportes - apenas vistos - para os alemães.

Em entrevista ao UOL, publicada nesta sexta-feira (24), o diretor da série, Jayme Monjardim, não comenta os questionamentos feitos por Koifman e Afonso.

Procurada nesta sexta-feira, a Globo não respondeu sobre as razões da troca de título da série. No final de agosto, igualmente, a emissora não quis comentar, ao ser procurada, as contestações feitas por historiadores à história de Aracy.