PUBLICIDADE
Topo

Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Assessor escolhe veículos alinhados para questionar Bolsonaro em Petrópolis

Presidente Jair Bolsonaro e ministros visitam Petrópolis após tragédia causada pelas chuvas - Reprodução/Twitter
Presidente Jair Bolsonaro e ministros visitam Petrópolis após tragédia causada pelas chuvas Imagem: Reprodução/Twitter
só para assinantes
Mauricio Stycer

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Adeus, Controle Remoto" (editora Arquipélago, 2016), "História do Lance! ? Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo? (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011). Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Colunista do UOL

18/02/2022 12h24

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido

Entrevistas coletivas com autoridades exigem algum tipo de organização. Assessores normalmente fazem uma lista de inscrição e dão chance aos jornalistas que se interessaram em fazer perguntas dentro do tempo determinado para o evento.

Não foi bem isso que ocorreu nesta sexta-feira (18), em Petrópolis, antes da entrevista coletiva concedida pelo presidente Jair Bolsonaro, que visitou áreas atingidas pelas chuvas na cidade serrana.

Cerca de 40 profissionais da mídia (TVs, rádio, jornais e portais) estavam aguardando o início da coletiva em uma sala no 32º Batalhão de Infantaria Leve de Montanha. A certa altura, assessores da presidência começaram a procurar determinados jornalistas. "Quem está aí da CNN?". A pergunta se repetiu em relação a SBT, Record, Jovem Pan e Band (esta última não tinha repórter naquele local).

Os próprios repórteres dos veículos selecionados (Jovem Pan, Record, SBT e CNN) se surpreenderam com a abordagem. Eles não haviam procurado ninguém nem pedido qualquer privilégio.

O que estes veículos têm em comum? Os três primeiros são abertamente alinhados com Bolsonaro. Já o quarto é visto pelo governo como simpático.

Bolsonaro, como se sabe, prefere falar com aliados no cercadinho do Palácio do Alvorada do que com jornalistas. Em várias ocasiões já encerrou entrevistas abruptamente ou destratou repórteres por não gostar das perguntas feitas.

Um "causo" pessoal

Passei por uma situação semelhante em dezembro de 1991. Naquela data, os presidentes do Brasil e da Argentina, Fernando Collor e Carlos Menem, assinaram um acordo sobre controle de instalações nucleares na Agência Internacional de Energia Atômica, em Viena. Representando a Folha, eu estava entre os jornalistas que acompanharam o ato.

A assessoria do presidente do Brasil informou que apenas quatro jornalistas brasileiros, escolhidos por sorteio (que ninguém viu), poderiam fazer perguntas a Collor na entrevista coletiva - e as perguntas deveriam se limitar ao acordo assinado. Em um protesto silencioso contra o método de seleção e os termos, dois deles, os representantes da Gazeta Mercantil e da TV Globo, preferiram dirigir suas perguntas a Hans Blix, o sueco que presidia a AIEA.