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Lava Jato X PGR 3: Dallagnol e 40 anos de atraso em 4; quer volta por cima

Deltan Dallagnol, o buliçoso procurador, resolveu voltar ao noticiário, apontando, desta feita, irregularidade onde não há. Na foto, ele apareceu ao lado da palavra "impunidade", projetada na tela - Tomaz Silva/Agência Brasil
Deltan Dallagnol, o buliçoso procurador, resolveu voltar ao noticiário, apontando, desta feita, irregularidade onde não há. Na foto, ele apareceu ao lado da palavra "impunidade", projetada na tela Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

30/06/2020 05h40

O buliçoso Deltan Dallagnol se esqueceu de um detalhe no seu embate com a Procuradoria Geral da República: quando ele recorria, antes, ao expediente de jogar caca no ventilador da imprensa e das redes sociais, era Rodrigo Janot quem comandava a PGR. Este endossava e até extremava a sua militância extracurricular. Raquel Dodge, uma pessoa correta, foi, infelizmente, omissa.

Agora, a mamata acabou. Ele tem de dar explicações, de acordo com um procedimento regular e obrigatório. E, mais uma vez, convoca a imprensa e acusa uma conspiração.

NOTA DE CONTESTAÇÃO
Nesta segunda, a Lava Jato de Curitiba divulgou uma nota em que contesta textos públicos no site Consultor Jurídico, em parte reproduzidos neste blog, que explicam a razão de a PGR cobrar informações dos valentes. Lá está escrito:

"Diante da fake news divulgada no site ConJur em 26/06/2020, a força-tarefa de procuradores do Ministério Público Federal (MPF) no caso Lava Jato informa que jamais adquiriu o equipamento/sistema Guardião ou qualquer outro equipamento de interceptação telefônica. Todas as interceptações telefônicas realizadas no caso Lava Jato foram autorizadas por decisão judicial e efetivadas exclusivamente pela Polícia Federal.

Também são mentirosas uma série de afirmações feitas na matéria publicada, como a de que houve 'distribuição de processos fraudadas'. Todas as distribuições dos processos da Lava Jato em Curitiba são submetidas ao Poder Judiciário e são registradas eletronicamente por meio do sistema E-proc, da Justiça Federal, e do Sistema Único, do MPF.

A força-tarefa repudia a divulgação de informações evidentemente falsas pelo referido veículo."

O jornalista Márcio Chaer, diretor de redação do CJ escreveu uma resposta e mantém as informações publicadas. Lembro o que afirmou o site:
1) os procuradores de Curitiba abriram mais de mil inquéritos nos últimos cinco anos, que não foram encerrados;
2) a força-tarefa adquiriu três Guardiões -- sistema de interceptação telefônica --. mas dois deles sumiram. Grande parte do acervo de gravações foi apagado no ano passado;
3) houve distribuição fraudulenta de processos.

Como se lê na nota, os patriotas negam duas das acusações: a distribuição fraudulenta e o uso da escuta telefônica ao arrepio da lei, mas nada dizem sobre os procedimentos de investigação abertos e que nunca foram fechados. Se isso realmente está em curso, o que se tem é um modo de investigação, ao arrepio do controle judicial, e que nunca tem fim.

A INVESTIGAÇÃO
Que fique claro: a corregedoria do Ministério Público Federal quer saber, sim, se Lindora Araújo agiu dentro das normas ao pedir os dados. Afinal, Dallagnol e seus rapazes acusam uma arbitrariedade. Mas Elizeta Maria de Paiva Ramos, a corregedora, também quer esclarecimentos sobre "a existência de equipamentos utilizados para gravação de chamadas telefônicas recebidas por integrantes da equipe da força-tarefa, incluindo membros e servidores".

Segundo a Lava Jato de Curitiba, o tal equipamento gravava conversas autorizadas de funcionários do Ministério Público que recebiam ameaças e que queriam prová-las em investigações". Ah, bom...

Assim, é matizado na explicação oficial aquilo que, na nota, é uma negação peremptória. O objetivo, claro!, é mobilizar a imprensa para angariar apoios.

Então havia gravações? Eram legais e regulares? Por que o temor? Nem se trata de dizer "quem não deve não teme", já que prestar essas informações ao braço da operação da Lava Jato na PGR é uma obrigação. Qual o motivo da gritaria?

Nesta segunda, já começaram a circular especulações — sem fonte, é claro! — de que a ação da subprocuradora-geral busca preservar interesses de pessoas investigadas por corrupção.

Não sei se a Lava Jato de Curitiba cometeu mesmo as tais ilegalidades. Que se investigue. Mas de uma coisa eu sei, e isso dispensa investigação: os bravos continuam a se considerar acima da lei e do bem e do mal. O "modus operandi" segue o mesmo: ao menor sinal de que seu trabalho será submetido ao filtro da lei e das regras do jogo, eles começam a gritar: "Querem acabar com a Lava Jato; isso é conspiração de A, de B e de C".

No fim das contas, é só o berreiro de quem não suporta o Estado de Direito.

O país se tornou refém dessa gente por longos quatro anos. E o que se produziu foi um atraso de 40. A questão é saber se devemos lhes dar licença para recuar outro tanto. A turma já tem até candidato para isso: Sergio Moro. Espero que Aras não recue e que a Corregedoria tenha a coragem de fazer o que não se fez nos anos que prepararam a grande marcha para trás.

Reinaldo Azevedo