PUBLICIDADE
Topo

5 dias após criticar MP e Judiciário, deputado é alvo de... MP e Judiciário

Deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara: segundo ele, Lava Jato não é isenta - Valter Campanato/Agência Brasil
Deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara: segundo ele, Lava Jato não é isenta Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

17/09/2020 06h44Atualizada em 17/09/2020 16h29

Ai, ai, ai...

Vocês acreditam em coincidência? Em política, é um fenômeno raro, embora agentes públicos dos Três Poderes vivam dizendo que a dita-cuja existe.

O Ministério Público do Paraná cumpriu nesta quarta mandado de busca e apreensão no escritório do deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), em Maringá, na região Norte do estado. Ele é o atual líder do governo Bolsonaro na Câmara. De acordo com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, a investigação envolveria fraudes na contratação de energia eólica. Na origem, está uma delação premiada. As supostas fraudes teriam ocorrido entre 2011 e 2014. O MP acusa Barros de corrupção e lavagem de dinheiro.

Em nota, o deputado, que está no sexto mandato na Câmara e já foi prefeito de Maringá, disse estar tranquilo, colaborando com as investigações. Afirmou ter solicitado acesso aos autos para instruir a sua defesa. Para lembrar: Barros foi relator na Câmara do texto resultou na nova lei que pune abuso de autoridade, tão criticada pelo Ministério Público e por setores do Judiciário.

Chico Alves e Tales Faria, colunistas do UOL, publicaram uma entrevista com o deputado na sexta passada (11) — cinco dias antes, pois, da ação desfechada nesta quarta. Texto e vídeo estão aqui.

Na entrevista, Barros critica os métodos autoritários do Ministério Público. Afirmou, referindo-se a membros do Judiciário, mas em especial do MP:
"Eles agem contra o cidadão no meio da campanha. Prendem, fazem busca e apreensão, vazam informação de delação, tiram a pessoa do processo político. E, depois de alguns anos, se se provar que não era nada, não era nada... Bate nas costas. Nem pedir desculpas eles pedem. Não respondem por nada do que fazem".

Como sempre, não assevero culpa ou inocência de ninguém. Verifico se o devido processo legal está sendo cumprido. Mandado de busca e apreensão para colher elementos de prova de suposto crime que teria cessado em 2014? Isso virou uma rotina da Justiça e do MP. Tão distante está o evento investigado que, entendo, o procedimento serve apenas à exposição da figura pública ao enxovalho.

Na entrevista a Alves e Faria, Barros disse mais:
"É claro que há uma parcialidade na posição da Lava Jato, todos sabem disso. É evidente, é visível. Tirou o Lula da eleição, produziu uma situação nova para o país, a interpretação [da lei] mudou... Era uma [interpretação], mudou para prender Lula. Passou a eleição, mudou para soltar Lula. Não precisamos fazer muito esforço para perceber ativismo político".

Afirmou ainda o deputado:
"Nós estamos assistindo ao ativismo político do Judiciário e do Supremo [Tribunal Federal]. (...) Isso sempre aconteceu, mas [está acontecendo] com muita intensidade de uns seis anos para cá. Um pouco antes da Lava Jato, nós já tínhamos sinais de que o Judiciário pretendia assumir o protagonismo."

Se o deputado é culpado ou inocente, insisto, vamos ver como andam as coisas na Justiça. Não sou juiz do processo. Mas posso, sim, emitir a minha opinião sobre a sua análise: está absolutamente correta.

Seis dias depois, o deputado que criticou os métodos autoritários do MP e do Judiciário, relator na Câmara da lei que pune abuso de autoridade, foi alvo de mandado de busca e apreensão.

Em política, existe coincidência?

Leia artigo de dois juristas sobre a entrevista de Ricardo Barros