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Como Bolsonaro contamina as virtudes do agronegócio com crimes ambientais

Presidente Jair Bolsonaro durante gravação de seu pronunciamento na abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU - Marcos Correa/Divulgação
Presidente Jair Bolsonaro durante gravação de seu pronunciamento na abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU Imagem: Marcos Correa/Divulgação
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

23/09/2020 05h18

Quando é que um discurso está essencialmente errado, seja de um presidente, seja de um outro qualquer? Quando até aquilo que é certo acaba saindo pela culatra. Vale dizer: quando aquele que fala não consegue ter razão mesmo dizendo coisas que fazem sentido. E isso acontece sempre que algum fator externo, alheio aos fatos, deita sua sombra sobre a realidade. Não é diferente especialmente com Jair Bolsonaro, que tem de se ajoelhar no altar dos seus extremistas.

Por incrível que pareça, o presidente até disse coisas que fazem sentido em seu discurso na abertura da 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas. O Brasil responde, afirmou ele, por 3% das emissões de carbono, embora seja a 10ª economia no mundo. Estimativas mais realistas apontam um pouco mais de 3%, mas, convenha-se, ainda assim, não é nada escandaloso, dado o peso que o país tem, por exemplo, no mercado mundial de alimentos.

E aqui temos outra questão que conta a favor do Brasil. A maior parte das emissões de carbono não se deve à queima de combustíveis fósseis e sim à produção agropecuária. Com ela, abastecemos o mundo, garantimos, ao longo do tempo, superávits na nossa balança comercial e, internamente, fornecemos comida barata a um povo pobre — que ora vive o desequilíbrio do arroz, além de outros, circunstanciais.

E ocupamos menos de 28% do território nacional para conseguir esse prodígio: pouco mais de 8% para a agricultura e 19% para a pecuária, o que também é um feito notável, dadas as virtudes do setor, caracterizada por uma produtividade já bastante apreciável. E que pode melhorar. Os números são um tanto imprecisos no detalhe, mas é certo que pelo menos 60% do território brasileiro ainda estão cobertos por vegetação original. A mata brasileira (5,44 milhões de Km²) segue sendo a segunda maior do mundo, perdendo para a Rússia, com seus 8,4 milhões de Km².

Naquele país, a cobertura vegetal original corresponde a 49% do território; no nosso caso, a 63%. Nenhuma outra nação conseguiu desempenho semelhante ao do Brasil no agronegócio tendo tamanha área preservada — ainda que aos trancos e barrancos. Para comparar: os EUA conservam 2,26 milhões de Km² de mata original, o que corresponde a 23% do território. A gigantesca China fica com meros 1,63 milhão de Km², ou 17% de sua área. A Europa, que reúne os países mais agressivos na cobrança de políticas ambientais, seria um vexame histórico se fôssemos tomar a conservação como virtude única: a desproporção na comparação com o Brasil é abismal: o velho continente mantém da cobertura vegetal original apenas 0,3%.

Segundo dados da ONU, 30% do território mundial é coberto de florestas. Desse total, apenas 36% são primárias. Assim, há reflorestamentos, e a cobertura vegetal da Europa é maior do que aqueles ridículos 0,3%. Para se ter uma ideia: a cobertura vegetal original da Holanda é igual a zero. O que se tem de mata foi plantada pelo homem.

Trago aqui esses números para deixar claro que o Brasil deveria seguir na trilha que havia abraçado nos últimos anos — de maneira mais clara nos 10 que antecederam o governo Bolsonaro —, quando o país passou, de fato, a ser considerado um exemplo de conciliação entre preservação e produção. Mas aquele ativo se perdeu.

Num dado momento, especialmente ao tempo em que se debateu o Código Florestal, foi preciso enfrentar certo sectarismo ambientalista, que defendia uma legislação que quebraria as pernas do agronegócio e da economia brasileira. Chegou-se a um bom texto, que está virando fumaça nas queimadas desenfreadas da Amazônia e do Pantanal. Parte das áreas devastadas pertence ao ciclo da própria natureza, seus eventos climáticos e sua conjugação com culturas tradicionais. Mas parte, os dados são inequívocos, decorre de ações criminosas ou desastradas.

Bolsonaro poderia ter exibido todos esses números, cobrando, sim, como o país vinha fazendo, que os ricos ajudassem a financiar a preservação das florestas tropicais, com a maior parte se concentrando no Brasil. É preciso cobrar de maneira maiúscula e clara, não com insultos, que aqueles que mais devastaram e que ainda hoje mais emitem carbono ajudem, então, a preservar o planeta, o que beneficiaria o nosso país.

Infelizmente, o presidente preferiu exercitar teorias conspiratórias, apontando supostos complôs contra o Brasil e negando a evidência do desmatamento e das queimadas. Isso não nos conduz a lugar nenhum. Ou conduz: a um mau lugar.

Para saber se o discurso de Bolsonaro foi bom ou ruim, pergunte a si mesmo e responda: o mundo ficou mais convencido de que o país consegue lidar com as agressões ao meio ambiente? A resposta, obviamente, é não. Então se tratou de um mau discurso.

Um estadista consegue transformar até vícios em virtudes, o que certamente é lastimável em si. O mau governante acaba transformando uma virtude num vício, o que é ainda pior.