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Reinaldo Azevedo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

CONSPIRAÇÃO II: Kajuru, Vieira e Bolsonaro se aliam contra a investigação

Jorge Kajuru: ele gravou conversa com Bolsonaro. Deve ter achado que era uma grande ideia. Os dois cometeram crimes - Jorge William / Agência O Globo
Jorge Kajuru: ele gravou conversa com Bolsonaro. Deve ter achado que era uma grande ideia. Os dois cometeram crimes Imagem: Jorge William / Agência O Globo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

12/04/2021 05h21

O senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) é um queridinho do bolsonarismo e do subjornalismo que lhe presta serviços. Alessandro Vieira (Cidadania-SE) não chega a tanto, mas desgostado não é, até porque é o pai da tese da CPI da Lava Toga, uma estrovenga inconstitucional de várias maneiras combinadas.

Como ambos são os autores do mandado de segurança que levou Roberto Barroso a determinar a abertura da CPI — cujo requerimento é de autoria de Randolfe Rodrigues (Rede-AP) —, passaram a apanhar das milícias bolsonarianas nas redes. E os dois, agora, estão tentando livrar a própria cara.

Kajuru gravou a sua conversa com o presidente da República e a divulgou nas redes. No papo, note-se, Bolsonaro se mostra mais bem-informado e mais culto do que o senador. Entenderam???

Bolsonaro afirma:
"É uma CPI completamente voltada para a minha pessoa".

Responde Kajuru:
"Não, presidente! Mas a gente pode convocar governadores".

O presidente retruca e com acerto:
"Se você não mudar o objeto da CPI, você não pode convocar governadores".

E o senador:
"Mas eu vou mudar. Eu quero ouvir governadores".

Bolsonaro responde: "Se você mudar, dez pra você". E dá a receita:
"Então o que você tem de fazer? Tem de mudar o objetivo da CPI: ela tem de ser ampla.(...) O Objetivo da CPI, como está lá, é investigar omissões do governo no trato da Covid."

Kajuru se dedica, em seguida, a rapapés, pedindo que não seja tratado como os demais senadores que querem CPI. O presidente explica de novo:
"A CPI como está hoje é para investigar omissões do presidente Jair Bolsonaro. Ponto final."

E continua:
"Kajuru, se não mudar o objetivo da CPI, ela vai só vir pra cima de mim. "

O senador volta a falar bem de si mesmo, dizendo que não concorda com coisas erradas -- ohhh --, e Bolsonaro volta à carga:
"Kajuru, veja já o que tem de fazer para fazer com que uma CPI seja útil para o Brasil, mudar a amplitude dela. Botar governadores e prefeitos. Presidente da República, governadores e prefeitos. Se não mudar a amplitude, a CPI vai simplesmente ouvir o Pazuello, ouvir gente nossa, para fazer um relatório sacana. Tem que fazer do limão uma limonada. Por enquanto, é um limão que tá aí. Dá para ser uma limonada"

AOS FATOS!
Prestem atenção! Ao determinar que a CPI fosse instalada, o ministro Roberto Barroso lembrou que ela cumpre o os três requisitos da Constituição: assinatura de ao menos um terço dos membros da Casa, fato determinado e prazo certo.

Não! O requerimento da CPI não permite a investigação de governadores e prefeitos. A menos que, no curso da comissão, apareçam fatos conexos. Lembro qual é o objeto, definido por Randolfe Rodrigues, autor do requerimento que conta até agora 33 assinaturas -- ou 32, já que Major Olímpio morreu:
"Ações e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia da Covid-19 no Brasil e, em especial, no agravamento da crise sanitária no Amazonas, com falta de oxigênio para os pacientes internados".

Eis a o "fato determinado" que está no pedido. E é essa CPI que Barroso mandou instalar.

PETIÇÃO DE ALESSANDRO VIEIRA
Percebi neste sábado que estava em curso um golpe contra a CPI. O senador Alessandro Vieira apresentou uma petição ao presidente do Senado pedindo que estados e municípios fossem incluídos na investigação. Escrevi um tuítea respeito e depois um texto neste blog.

Acusei o óbvio: na prática, tentava-se sabotar a CPI. Estão querendo mudar de forma cartorial o objetivo da Comissão e o fato determinado que conta com a assinatura dos senadores. Uma CPI que tivesse como alvo investigar a ação ou omissão da União, do governo federal, de 27 unidades da federação e de 5.570 municípios teria de ser declarada inconstitucional. Afinal, qual seria o fato determinado?

Ao pedir que se mude o objeto — e Alessandro Vieira já havia feito petição para o presidente do Senado —, o que se quer é inviabilizar a comissão. E Bolsonaro deixa escapar esse desejo.

Um senador e o presidente da República unidos para impedir que a CPI, conforme o conteúdo do seu requerimento, seja instalada. É do balacobaco!

Nas palavras de Bolsonaro, "limão" é investigar o governo federal; e "limonada", os governadores e prefeitos. Kajuru, como a conversa deixa claro, está com ele. E Alessandro Vieira, por óbvio, também.

Vieira me ligou no sábado, depois do meu Twitter. Não era conversa em off. Afirmei a ele que o governo queria exatamente aquilo que estava em sua petição. Como a conversa gravada deixa claro agora, eu estava certo.

Só para lembrar: o pedido do senador tem endereço errado. O presidente do Senado não pode mudar o objeto de uma CPI já protocolada. Se for instalada, tem de ser segundo o fato determinado que consta do requerimento.

É espetacular: os dois senadores que entraram com Mandado de Segurança para que a comissão de investigação fosse instalada agora atuam contra ela.

Se era cálculo desde o começo, foi um tiro no pé.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL